newsletter - 30/01/26
- Lívia Vitenti

- 30 de jan.
- 2 min de leitura

Trilha sonora para essa edição: Movimiento - Jorge Drexler
“Será que cheguei ao fim de todos os caminhos
E só resta a possibilidade de permanecer?
Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada
Ou será ela a própria caminhada?
Terão mentido os que surgiram da treva e gritaram — Espírito!
E gritaram — Coragem!
Rasgarei as mãos nas pedras da enorme muralha
Que fecha tudo à libertação?
Lançarei meu corpo à vala comum dos falidos
Ou cairei lutando contra o impossível que antolha-me os passos
Apenas pela glória de tombar lutando?
Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos...
Ao fim de todos os caminhos?”
Fim, Vinícius de Moraes
As duas primeiras frases dessa poesia vêm na minha cabeça com uma certa frequência. A ideia de ter chegado sempre me angustia. A ideia de permanecer sempre me angustia. Por isso estou sempre em movimento, sempre procurando algo novo que sacuda a poeira dos meus dias.
Uma frase atribuída a Confúcio diz que aquilo que escuto eu esqueço, aquilo que vejo eu lembro, aquilo que faço eu aprendo. Eu entendo que fala sobre fazer, seja de que forma for.
É na força do fazer - e para mim, na força da palavra - que podemos estar presentes no mundo. Qualquer que seja esse mundo. Qualquer que seja esse realizar. Como quer que seja essa palavra. Escrita, cantada, declamada, sussurrada.
Eu passei muito tempo da minha vida pensando que uma atividade que demandasse minha criatividade iria excluir outra, automaticamente. Como se não me fosse permitido ou, ainda pior, que se eu fosse incapaz de criar em mais de uma esfera. Depois de muito trabalhar essa falsa afirmação, passei a pensar que, embora eu fosse capaz de atuar em diferentes áreas criativas, somente em uma (no máximo duas), eu poderia ser boa.
Ser boa. Boa como? Baseada em que critérios? Boa pra quem? Boa pra que?
O Mano Brown perguntou ao Emicida se ele considerava que tinha chegado lá. Essa expressão, que não pede por maiores explicações, lhe pareceu estranha. Lá aonde? Quis saber Emicida. Ninguém nunca chega lá. Nós podemos estar lá, e logo não estar mais. Não há uma linha de chegada.
E quem se pergunta agora sou eu - me inspirando de Vinícius: se chegamos, só nos restaria a possibilidade de permanecer?
O innu, me explicou Joséphine, é uma língua que caminha o nutshimit, esse espaço físico e social onde as pessoas se reúnem para todo tipo de atividades. Além disso, nesse idioma, um ser inanimado que te dá algo, passa a ser animado. Uma árvore que te dá frutos é então uma entidade. No innu, não se chega nunca, porque sempre se caminha o nutshimit. Eu gosto da ideia de nunca chegar, de nunca permanecer, de estar sempre em movimento, físico, mental, emocional.
Para mim, é a palavra que me move. Posso me lembrar, posso escrever, posso cantar e falar. Posso ser boa pra mim, quase sempre, mas às vezes nem tanto.
Nesse movimento, volto depois de um descanso a escrever minhas newsletters. Faço isso com alegria e muita inspiração. Já separei pelos menos uns 10 assuntos pra conversar por aqui.
Até breve,
Lívia



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