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Newsletter - 20/02/26

Luz, sombra, cutículas e outras incertezas mais.


Trilha sonora para essa edição: Pieces from places, Passeport Duo


I


Minhas cutículas crescem na mesma velocidade com que os reflexos da luz atravessando a persiana se formam na parede. Parece que elas vão tomar todo o comprimento das minhas unhas e me impedir de escrever. 


Mas, deixa eu começar de novo.


Da cama, vejo os reflexos que a luz do sol lança na parede. Ao longe, o som de algum bloquinho de carnaval. Nas minhas mãos um livro bonito com algumas páginas furadas por uma traça que já sumiu há tempos, antes que os reflexos virassem sombras. 


Nem sempre sei como começar de novo.



II


Fiz um mapa astral com a Júlia Hansen há uns anos. Ela comentou que, às vezes, relê seus projetos de escrita, anota o que realmente gosta neles, joga fora e recomeça a escrita. Ou algo assim. 


Lá fora, o caminhão de picolé repete a mesma música pela enésima vez. "Tem de leitche condensadoa". Me irrito antes de perceber que estou buscando a capacidade em mim de repetir até dar certo. 


Como posso saber a hora de repetir e a de começar de novo?


III


Faz tempo, venho trabalhando em um manuscrito que começou com uma ideia muito diferente do que o livro se tornou. Fiz alguns processos de leitura crítica dele e gosto de culpar essas leituras pela minha incapacidade de terminar. Mas a verdade é que eu não sei como dimensionar o tamanho do que quero dizer ali. Ora acho repetitivo, ora acho que não abarca a enormidade da história que se forçou porta adentro do meu livro, sem que eu me desse conta. 


É possível mesmo começar de novo?


IV


Sentei para escrever essa carta sem um tema. Vejo agora, claro como a luz na parede, que tem a ver com saber lidar com a opinião dos outros sobre o que produzo. Como se eu não fosse capaz de avaliar sozinha o que escrevo, o que de mim deixo ser visto, seja sombra ou luz, através das cortinas.


Em uma leitura de um outro projeto de livro que também não terminei, me chamaram atenção para a quantidade de vezes que aparecia a palavra acho no meu texto. “Ela não sabe se acha, mas acha que acha”. Minha insegurança ali, completamente escancarada, como as janelas do quarto da casa dos meus pais, onde passei todos os dias do carnaval.


Recentemente, meu pai comentou que termino minhas colocações com “né?”, como se sempre precisasse de validação. Passei a observar. É verdade, escrevo muito que acho, penso, acredito e sempre termino pedindo que alguém confirme.


V


Mas, deixa eu começar de novo.


VI


Era uma vez uma história nascida de um sonho com ares de ficção científica que se tornou uma história sobre luto. Em agosto vai fazer 20 anos que meu irmão morreu e demorei 17 para escrever qualquer coisa sobre o que foi perdê-lo. No livro quase pronto, ou prestes a ser recomeçado, me fragmento, como sói ser o luto. É bonito também,


como uma passagem das sombras à luz.


Ou o contrário.


VII


Gosto de observar as plantas secando, tem algo de belo naquilo que se plasma do que já foi tão pungente um dia.


Gosto de fotografar os pratos vazios na bagunça de uma mesa pós-refeição.


Gosto de ruínas.



VIII


Mas falar da morte do meu irmão é enorme. Tenho medo do que isso pode gerar em mim, na minha família, nos amigos. Como se as minhas memórias não pudessem nunca ser validadas, me vejo com um “né?” ecoando ad eternum sem resposta. Justamente porque a memória é, antes de mais nada, uma máquina de criar ficções. E eu não sou capaz de validar as minhas


ficções,


memórias,


verdades,


mentiras.


Depois que o livro ganha o mundo, não é possível começar de novo.


Será?


IX


Do outro lado da rua, do meu ponto de observação e sem óculos, vejo um longo borrão dourado, se movendo ao ritmo da música de carnaval. Escolho não ver com nitidez, uma tentativa de me ater apenas ao que é movediço.


Concluo que o que preciso é abrir mão do controle.



Até breve,

Anna


📚Li coisas presentes demais, da Flávia Peret, e On earth we're briefly gorgeous, do Ocean Vuong. Também terminei o livro da Neige Sinno e comecei a ler Flecha, da Matilde Campilho. Os três livros que terminei são, cada um a seu modo, livros de memórias. Inconscientemente, enquanto busco terminar de escrever as minhas, a partir da morte do meu irmão, tenho me cercado de inspirações.

 
 
 

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