Newsletter - 13/02/26
- Lívia Vitenti

- 13 de fev.
- 3 min de leitura

Trilha sonora para essa edição: Yèkèrmo Sèw, Mulatu Astatke
Imagino Lucy correndo por um relevo que só existe na minha cabeça. Há 3,2 milhões de anos, como seria a bacia de Hadar? Seria árida e rochosa como hoje em dia? Mais provável que não. Provavelmente havia matas ciliares, lagos, pedreiras, rios e paisagens abertas.
Imagino Lucy correndo pelas pradarias, adentrando a mata em busca de água e subindo em árvores pra pegar frutas. A imagino ficando de pé e nos colocando na rota do que hoje chamamos de homo sapiens. Lucy nos deixou seus pés pra que a gente soubesse que ela andava sobre eles, e suas mãos pra mostrar que andava entre as árvores. Lucy está entre o que fomos e o que passamos a ser. Ela é o nosso elo pra entender que nossos caminhos jamais serão em linha reta, mas antes uma dança entre galho e chão.
Penso em rotas estranhas… quão enigmático é saber que membros de vários grupos indígenas brasileiros, sobretudo os denominados Aimorés, carregavam DNA polinésio. Como se deu esse contato, ainda é um mistério antropológico. Seja pela rota provável, por navegações improváveis ou herança de pessoas escravizadas, o que temos é novamente uma história contada dentro da outra, cujo desfecho (o chão de nossas minas gerais) esconde um rastro que começa em ilhas remotas da Oceania.

Em A Ilha do Dia Anterior, Umberto Eco me explica como é estar à deriva e ancorada. Paradoxo que me faz pensar em tudo que parece tão próximo e, ao mesmo tempo, inalcançável. É mais, me faz pensar em como o ontem e o hoje se unem e se repelem, em um movimento inspirador e um pouco amedrontador. Porque sua personagem permanece suspensa entre o ontem e o amanhã, entre a água e a terra, com desejos incumpridos.
Essa é uma forma de entender o entrelaçamento dos tempos. Outra é pensá-lo como um arqueólogo entende os vestígios que vai encontrando. Pensar nas linhas imaginárias onde o ontem e o hoje se tocam.
Eu escrevo como um escriba medieval, em um pergaminho que nunca será totalmente apagado. Escrevo como uma arqueóloga, limpando cuidadosamente peça por peça, retirando essa areia, que também me conecta ao passado, e revelando os elos da minha história. Entendi que escrever se tornou o hábito de escavar vivências, medos, desejos, expectativas e frustrações, mas sempre com um olhar para o futuro.
No final das contas, imaginar Lucy correndo ou subindo em árvores, mesmo sabendo que ela já morreu há mais de 3,2 milhões de anos, me faz pensar em todas as minhas versões que já não estão mais aqui, mas que ainda sustentam quem eu sou hoje. Escrever sobre minha própria vida - o que eu faço com frequência - é mais do que limpar os ossos de uma estrutura antiga. É dar carne e sangue à minha história.
Assim como imaginar como se deu o encontro impossível entre polinésios e botocudos me faz pensar em tudo o que é contingente, mas nos muda estruturalmente. Me faz suspeitar que algo que hoje me define ou me guia pode vir de onde eu menos espero.
Finalizo com o escritor, já que foi ele que me fez pensar em tudo isso. Umberto Eco descreve uma personagem prisioneira de um meridiano invisível que divide o mundo em dois tempos. Enquanto não pode tocar a ilha, percorre os corredores da sua memória. Nos faz pensar que há algo de intransponível entre os dois mundos.
Para mim, é o contrário. Minha inspiração e minha forma de estar no mundo moram justamente nesse movimento de escavar, sacudir a poeira dos ossos e trazer para a luz do dia o ontem, ainda que eu não saiba bem como ele foi.
Até breve,
Lívia



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