Newsletter - 10/04/26
- Lívia Vitenti

- 10 de abr.
- 3 min de leitura
Ser habitada também por aquilo do qual eu me separei.

Trilha sonora para essa edição: Papel Sulfite, Metá Metá
Minha amiga Nathalie me visitou essa noite. Eu estava deitada na rede e a ouvi me chamar pelo nome, em francês mesmo. Na hora reconheci sua voz e tremi, porque ela faleceu há uns dois anos. Ela perguntou se podia se aproximar, e eu tive muito medo. Eu continuava deitada, e ela surgiu na minha frente com uma espécie de triângulo de madeira na mão. Ela dizia que se tratava de uma réplica barata - que estava inclusive remendada com uma fita adesiva - e que o original eu veria um dia, mas não naquele momento. Era algo muito importante, que ela colocava na altura do ventre.
Não é a primeira vez que ela me visita. Na noite anterior ao seu sepultamento, eu sonhei com ela vestida de branco, parada em um caminho de areia que a levaria ao mar. Ela sorria pra mim, acenava com a mão e se despedia. Ela estava muito bonita, e feliz.
Mas essa noite foi diferente. Ela continua bonita, e feliz. Mas veio pra me alertar de algo. Algo que eu ainda não entendi o que é. Fico com essa sensação de urgência, de necessidade de decifrar algo.
Nathalie era antropóloga como eu. Nos conhecemos no trabalho, passamos anos viajando juntas em um projeto de prevenção do suicídio em comunidades indígenas. Passamos anos correndo o Québec para entender as muitas formas de morrer e as outras tantas de viver o luto. Ela era uma defensora do luto paciente, longo, sem fim. Odiava manuais que ditam o quanto a dor da perda deve durar.
Não é à toa que durante a visita ela me apontava para várias outras mortes, de pessoas que eu sei, estão vivas. O luto da pessoa viva, mas que se vai de nossas vidas, é tão real - aqui sem nenhum intuito de comparação - quanto o luto das que faleceram. Eu já vivi vários lutos, uns bem mais assustadores que outros. Muitas dessas perdas foram escolhas, efetivamente. E eu me sinto bem por tê-las feito.
Mas eu acordei com esse sentimento de urgência, e me fiz essa pergunta: o que fica em mim de tudo do qual eu já me separei?
Eu tendo a interpretar meus sonhos pelo viés do insondável, sim, mas também pelo viés do inexplicável, mas hoje o que me move é o que eu posso captar pelo rastro que essa visita deixa. Nathalie, com seu triângulo de madeira - réplica barata de algo muito superior - me trouxe uma geometria de urgência. Porque eu entendo que tenho que sair do mal-acabado, do que está sendo esboçado, do somente pensado, para algo que se concretiza.
Eu poderia facilmente procurar um significado oculto nas estrelas. Mas não, o que eu entendo é que essas faltas, essas ausências, algumas buscadas, algumas forçadas pelo acaso - ou seria o destino - na minha vida, não são silenciosas. De fato, suas ausências são físicas, nada mais. Poucas delas se desvaneceram verdadeiramente. Por isso entendo que serão sempre material de auto-percepção, e também de criatividade.
A urgência que eu sinto nesse momento é de uma pessoa que percebe que a ferramenta ( o triângulo, a palavra, a escrita, a escuta) está na minha mão, pronta para ser usada.
Até breve,
Lívia


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