Newsletter - 15/05/26
- Anna Davison

- 15 de mai.
- 3 min de leitura
Uma exploração.
Trilha sonora para essa edição: Themes for dreams, Resavoir
I
16h. Brasília. Um pássaro repete o mesmo ritual há dias. Pousa no espelho retrovisor do carro vermelho estacionado sob a sombra das tamareiras da 308 sul. Se projeta para frente e para baixo para ver sua própria cara refletida no espelho. De cabeça para baixo e invertida, a imagem lhe fascina. Ele mexe a cabeça devagar, de um lado para o outro, tentando entender o que vê. Os olhos escuros pequenos e muito brilhantes encaram seu próprio reflexo. O pássaro se afasta, canta, olha ao redor. Depois, mergulha de novo. Se segura com força na borda do plástico vermelho do retrovisor para poder se abaixar um pouco mais. Agora é possível ver também o peito amarelo, formado por dezenas de penas rajadas de um leve cinza. Ele pia. O espelho lhe devolve a própria voz. O pássaro se assusta, abre as asas ensaiando a fuga, mas prefere olhar de novo. Cuidadosamente fecha as asas e se encara. Abre e fecha o bico, sem emitir nenhum som. Seus pés começam a escorregar. Ele se apruma, olha de novo ao redor, não quer ser interrompido durante o namoro. As primeiras gotas da chuva de todos os dias de janeiro caem. O pássaro olha para o próprio bico de novo, agora carregando uma gota. Se sacode. Olha de novo. Se cansa e voa. Amanhã ele vai voltar, sem lembrar de nada.
No prédio em frente, um homem observa o pássaro todos os dias antes de se olhar no espelho.

II
12h. Montreal. Faz sol e frio. Um pássaro pousa no teto de um carro cinza. O reflexo do céu faz com que ele se sinta voando, mesmo parado. Devagar, ele bate o bico contra a nuvem dura à sua frente. Estranha. Bate de novo, um pouco mais forte. Todo o seu corpo vibra com o choque. Mexe a cabecinha marrom de um lado para o outro, sem entender. Pergunta ao pássaro à sua frente, duro como a nuvem que o encara, se ele sabe o que está acontecendo. Tudo o que houve é a própria voz distorcida pelo metal que a reflete. Ele pula para trás. Depois, cuidadosamente, raspa o bico no azul profundo, causando um pequeno arranhão. Para ele, parece que seu bico apagou o céu. O pássaro pensa então que é um lago. Congelado, mesmo que seja abril e já não haja mais lagos congelados em Montreal. Mais ao longe, ele vê outro pássaro, marrom e pequeno como ele, voando no fundo do lago. Bate os pés, sente o calor do sol de primavera no metal. Ensaia uma pequena dança, balança as penas mais longas da cauda de um lado para o outro, no ritmo da música que sai da janela da casa em cuja calçada o carro está estacionado.
Do outro lado da rua, um casal para para ver o pássaro que se olha como Narciso, antes de trocar um beijo apaixonado.

III
18h. Algum lugar no mar do Japão. Um pássaro de asas longas plana sobre a balsa cheia de passageiros que voltam do trabalho. Ele nota o brilho do parafuso em uma das janelas. Parece um pequeno sol comestível. Cauteloso, ele se aproxima. De perto, o sol parece mais uma espécie de flor, com pétalas circulares. O sol ainda vai alto e o pássaro pensa que não vale a pena chegar mais perto. Não se pode comer o sol, nem chega perto demais das pessoas. Mesmo que a menina sentada ao lado do ponto brilhante pareça precisar de companhia. Ele projeta o bico bem para o alto e bate as asas o mais rápido que pode, para longe. É boa a sensação de subir até o infinito. Melhor ainda quando tem nuvens. A sensação úmida de atravessá-las dá vontade de se sacudir. O pássaro gosta de sentir suas penas brilhosas se aquecendo quando tudo o que ele vê ao redor é o azul.
Dentro da balsa, uma menina vê que a luz do sol reflete na superfície da água e bate no parafuso da janela onde ela está sentada, criando uma espécie de espiral dançante, que parte de pétalas concêntricas nascidas do centro do parafuso, no metal da janela.
Apaixonada pela dança da luz, a menina não vê o pássaro.

Até breve!
Anna
P.S.: Essa carta é uma exploração de formato. Adoraria saber o que você achou.
📚Li Poemas para abaixar o cortisol, da Tamires Tribst, e Pão dos anjos, da minha musa Patti Smith. Me decepcionei com a vida ao lado do Fred “Sonic” Smith, mas sigo encantada com a Patti.



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