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Newsletter - 08/05/26

Prefiro que perdurem meus amores que não têm hora pra acabar.


Mira Schendel. Untitled from Graphic Objects (Objetos gráficos). 1967. The Museum of Modern Art, New York. © 2023 Estate of Mira Schendel
Mira Schendel. Untitled from Graphic Objects (Objetos gráficos). 1967. The Museum of Modern Art, New York. © 2023 Estate of Mira Schendel

Trilha sonora para essa edição: Baioque, Chico Buarque 


Eu nunca escrevi poemas apaixonados. Mesmo no auge das minhas paixões mais violentas, eu fazia tudo, menos escrever. Talvez fosse concretizar demais algo que era muito mais bonito - e eterno - na minha cabeça. 


A verdade é que eu trocava de sonho com muita facilidade. Talvez não de sonho, mas de alvo de sonho. Mas a paixão e o amor eram sempre os mesmos. Depois de saturar muitos amores, eu aprendi a entender e medir meu desejo antes de dar ou pedir algo. Parece ruim, como se eu estivesse o tempo todo me tolhendo e sendo pouco espontânea. A questão é que, até meus 20 e poucos anos, eu amava igual o Chico Buarque em Baioque, eu devorava todo o meu coração, eu amava e odiava numa mesma oração.


Eu não fui infiel a esses amores, é que eu nunca encontrei de fato uma morada neles. Nem quando nós dois procurávamos pelo éden, nem quando era só eu que lhes dava todo o meu tempo. Talvez por isso nunca tive vontade de eternizá-los com uma mirada apaixonada. 


Porque o que eu escrevo tem pra mim gosto de vaticínio. Como se eu estivesse escrevendo em pedra mesmo. Eu prefiro que esse palimpsesto exista só dentro de mim. O que as pessoas lerão e escutarão de mim serão os ecos dessas paixões avassaladoras, que eu quis perenes, mas que não foram. 


Prefiro que perdurem meus amores que não têm hora pra acabar. 


Eu nunca escrevi poemas apaixonados, mas escrevo histórias de amor. Todas as minhas histórias, e poemas, têm amor e têm travessia. Hoje eu entendo que escrevo pra ancorar em mim a realidade da impermanência. Um assunto meio saturado, é verdade (e eu aqui, tão preocupada em não saturar nada), mas para mim da maior importância. Eu não escrevia minhas paixões porque, por mais que eu quisesse que elas não acabassem, eu sabia que viver naquele estado de forma permanente não era possível. 


Eu estou apaixonada. Meus amores nem sempre são gente. 


Me disseram, há uns dez anos, que eu mudaria de profissão. A Antropologia é um amor fiel e muito antigo, e eu sempre quis me manter fiel a ela também. A menor possibilidade de não ser antropóloga me arrepiava e me revoltava. Como assim, eu abandonaria o que me definia? Mas um amor não substitui o outro, e até hoje preciso parar, me concentrar e aceitar isso genuinamente. Porque eu estou apaixonada pela música, de um jeito que eu nunca estive. Eu estou apaixonada pela minha música. 


Outro dia me perguntaram, em tom desafiador, se eu queria que música fosse minha profissão. Eu disse que não, e a pessoa, ainda provocadora, me disse: por que não? Eu sorri, mas isso não saiu da minha cabeça.


Talvez sim, o momento seja o de realmente aceitar que cabe um monte de amor no meu coração, e que eu posso e serei fiel a todos eles, enquanto isso fizer sentido pra mim. 


Até breve, 


Lívia





 
 
 

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