top of page

Newsletter - 22/05/26

Guardo minhas palavras e o meu silêncio no mesmo lugar em que guardo minha alma.



Trilha sonora para essa edição: Papageno, Papagena, Wolfgang Amadeus Mozart


Eu sempre expressei meus sentimentos através das palavras. Quando não verbalizo o que sinto, fico mal. Sei expressar carinho e atenção com atitudes? Sim, sem problemas. Mas é realmente na fala e na escrita que consigo me comunicar de forma mais direta.


Não sou dada a meias palavras, nem a indiretas. Mas já me aconteceu de ficar quase sem palavras. Em alguns momentos transformadores da minha vida.


Em um deles, eu estava me sentindo profundamente enganada. Não houve traição, nem mentiras. Mas houve uma disparidade tão grande entre o que se anunciava e o desfecho da história, que eu só conseguia entender que alguém — ou algo — não tinha sido honesto comigo. Meus desejos? Meu destino? A pessoa? Eu mesma?


A amiga que notou minha quase mudez era alguém que me conhecia muito bem e que, assim como eu, se expressa bem através das palavras. Ela me sentou, contou uma história semelhante à que eu estava vivendo e me deu uma frase — sim, palavras — mágica para afastar aquela sombra de mim. Funcionou.


O peso que dou às palavras é esse: elas são mágicas quando sabemos usá-las. Magia nem sempre é algo bom. É preciso aprender a usá-la e saber bem qual é o seu propósito.

Trabalho há muitos anos com prevenção do suicídio. Uma vez, uma pessoa me disse que queria ser poeira de estrela. Bonito, é verdade — mas muito triste no contexto de sua história. Era um rapaz jovem que reunia quase todas as características associadas a jovens indígenas em risco de suicídio.


Agi na hora e perguntei se ele poderia falar um pouco mais sobre aquele sentimento. À medida que verbalizava, a história foi fazendo mais sentido para mim — e para ele também. Isso me ajudou a encontrar palavras, a acionar meu próprio vocabulário e a amenizar um pouco daquela angústia.


Como alguém que trabalha há anos com prevenção do suicídio, entendo isso: temos que saber falar — e quando falar. A verbalização, quando encontra alguém disposto a acolher, pode ser uma das melhores formas de diminuir a angústia e o desespero.


As palavras que usamos para falar de suicídio têm impacto, assim como o silêncio que o rodeia.


Papageno, o passarinheiro de A Flauta Mágica, tomado pelo desespero e pela solidão, decide se enforcar. Já não acredita que exista saída possível para sua dor. Acredita que foi abandonado pelo amor, pelo destino e talvez pela própria possibilidade de alegria. Então prepara a corda.


Mas, antes do último gesto, três espíritos da floresta o lembram da música.

Papageno toca sua flauta. E continua vivo.


Penso muito nessa cena porque acredito profundamente nisso: certas palavras, certas melodias, certas histórias conseguem criar alguns minutos a mais de existência dentro de uma pessoa. Às vezes, é tudo de que precisamos para que a sombra recue um pouco.

Escrever, para mim, é uma forma de continuar existindo dentro de mim mesma.


Eu toco minha flauta, canto minhas músicas, escrevo meus poemas — e me sinto viva.


E o silêncio?


O silêncio escolhido, na hora certa, também me permite continuar existindo. Dentro e fora de mim mesma. Hoje, ele me pertence tanto quanto eu pertenço a ele.


Até breve,


Lívia





 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Sarabatana Revista Independente de Literatura
  • Instagram

REVISTA INDEPENDENTE DE LITERATURA

bottom of page