Newsletter - 01/05/26
- Anna Davison

- 1 de mai.
- 5 min de leitura
Voltar para casa é uma forma de negação.
Trilha sonora para essa edição: Cocoon, Harushita Tanaka
I
Um cheiro indefinível penetra
pelas paredes, mais forte que o sol
que não consegue ultrapassar as nuvens.
Tudo é cinza,
como a dor
no meu ombro direito
e no centro do peito.
Se adaptar a uma casa
onde já se viveu
pode ser mais difícil
do que parece
É preciso
respirar de forma lenta e controlada,
ignorar o cheiro de comida
que não agrada
o epitélio já irritado
pelo ar seco que deixa
meus cabelos mais bonitos
Como se o desconforto
fosse também uma forma de anúncio
Algo me chama
para dentro daquilo que ainda não reconheço
II
O principal movimento dos meus dias tem sido a fisioterapia. Meu ombro piorou muito com a viagem e a expectativa de que chegaria a uma Montreal ensolarada e receptiva se desfez bem rápido. Não me entenda mal, estou feliz de estar aqui, mas não existe como voltar sem uma nova adaptação. Até porque não é exatamente possível voltar.
Nada é como era quando fui embora em agosto de 2024. Principalmente, eu não sou igual. Não depois de ter ido ao Japão, de ter passado da metade dos 40, de ter publicado um livro no Brasil e de, finalmente, ter aprendido a me ver como escritora em Buenos Aires. Um deslocamento permanente, como se cada lugar por onde passei tivesse deixado um pequeno desalinhamento no meu corpo.
Logo antes de voar para o outro lado do mundo, enviei o manuscrito final de escrever de boa aberta para a editora. Passei dias com o texto impresso espalhado pelo chão, tentando encaixar as fotos que selecionei para compor uma trilha de leitura. Oito fotos. Era tudo que a editora permitia e eu não posso imaginar meus textos sem imagens.
Lembro do chão coberto de páginas, da luz atravessando a janela e caindo sobre minhas palavras, como se também o sol estivesse em dúvida. Escolher oito imagens entre tantas foi um exercício de perda. Talvez escrever seja sempre isso, um trabalho contínuo de amputação.

III
Como leitora, gosto de formatos híbridos e de livros que trazem fotos ou desenhos ou qualquer outra coisa que misture literatura e outras formas de arte. Como escritora, persigo isso também. Cada palavra tem cor, som, cheiro, textura. Não sei se é possível dissociar, portanto, as diferentes formas de arte. Tudo é parte de uma massa mais ou menos disforme que compõe aquilo que preciso expressar. Cada vez mais.
É comum ouvir de artistas e escritores (queria não ter que escrever assim, como se artistas e escritores fossem categorias diferentes) que eles produzem seus trabalhos porque precisam. Têm que colocar para fora aquilo que insiste em surgir dentro. Não é possível existir sem realizar esse trabalho. Durante muito tempo, esperei sentir isso também. Demorei para entender que já sentia, mas que não era capaz de perceber desse modo.
Não sinto uma urgência diária de escrever, fotografar, fazer colagens. Sinto, no entanto, uma urgência enorme e diária de olhar. Andar pelas ruas buscando o que me inspira, o que me traz um sorriso à boca, o que me faz tremer. Parar diante de uma vitrine sem nada de especial, mas que parece ter sido feita só para mim, com as cores que estou vestindo. Observar uma pessoa atravessando a rua com um casaco amarelo em um dia cinza e sentir que ali existe um acontecimento completo.
Porque só pela inspiração é possível existir com algum grau de leveza no peito. E talvez escrever seja a consequência desse olhar insistente. Ou, ao invés, seja, exatamente, a mesma coisa que esse olhar, uma mistura inseparável.
Aquilo que faz possível aguentar os cheiros estranhos que penetram pelas paredes em dias cinza.
IV
Voltar para casa é uma forma de negação.
Voltar para casa pressupõe uma escolha por parar, por aterrar. Sentir os pés no chão, no mesmo chão, dia após dia. O que me dá um frio tremendo na barriga. Há algo de vertiginoso na estabilidade, como se ela escondesse um tipo de abismo.
Então, todos os dias, preciso escolher me arrumar, ir ao mercado comprar os tomates mais bonitos (aqueles que parecem umas pitangas enormes), misturar texturas, cores e padrões como nunca fiz antes. Escolher um prato, depois outro, desfazer as malas como quem tenta se convencer da chegada.
Ouvir os pássaros que cantam ao meio-dia e as crianças saindo da escola às quatro da tarde. Jantar sempre às 19h, mesmo que aqui isso signifique jantar de dia. A luz atravessando a janela enquanto como. Um deslocamento temporal, a escolha por acompanhar o relógio.
Sentir saudade de uma coisa indefinida e desejar outra ainda mais impossível de determinar. Uma saudade que não aponta para um lugar específico, mas para uma espécie de estado.
Montar um monstro só meu e entender que esse monstro é o resultado de estar em mim.

V
Monstro, etimologicamente, deriva do latim monstrum, que inicialmente significava “prodígio” ou “sinal divino”, estando relacionado a monstrare (mostrar/apontar) e monere (advertir/avisar), indicando algo que quebra a ordem natural.
Gosto dessa ideia de que o monstro não assusta, antes, revela, insiste em ser visto, mesmo quando preferiríamos desviar o olhar.
VI
Quebrar a ordem natural vem me demandando um trabalho muito meticuloso de olhar para dentro. Para o que pulsa e sussurra ininterruptamente. Para mim. Escritora, mulher, latino-americana, editora, fotógrafa, cozinheira, filha, irmã, companheira. Estranha. Cada uma dessas versões carregando uma pequena fratura, um fracasso. O único jeito de deixar algo verdadeiro nascer.
O que comprova que menti ali em cima quando disse que o principal movimento dos meus dias tem sido a fisioterapia. O principal movimento dos meus dias tem sido o das pupilas, do epitélio, os movimentos peristálticos e a captação de sons. O corpo inteiro trabalhando para transformar o mundo em algo meu.
O principal movimento dos meus dias tem sido o de nutrir essa nova pessoa chegando a uma antiga casa. Alimentá-la com minúsculas decisões: sair para caminhar mesmo quando o vento corta, escolher frutas, não fugir.
O principal movimento dos meus dias tem sido alimentar o monstro. Meu sinal divino.
VII
Deve ser isso que me mantém aqui, a suspeita de que há algo a ser mostrado a mim mesma. Um gesto lento de revelação que acontece quando aceito não entender completamente o que estou vivendo.
A casa, o cheiro, o ombro, o frio, a luz que chega fora de hora. Tudo parece conspirar para um tipo de aprendizagem que não se deixa nomear com facilidade.
E ainda assim, insisto em nomear.
Porque escrever, no fim, é se aproximar o suficiente daquilo que insiste em permanecer sem nome.
Feliz dia do trabalhador!
Até breve,
Anna
📚Terminei o livro da Delphine Vigan. Muito bom! Também li Ginastosofista, da Julia Henning, um livro lindo, cheio de poemas que eu queria ter escrito, e a série delícia de zines da Luiza Leite, Não é um leitor sistemático, uma biografia de John Ashberry + Coisas que acontecem num poema + Música Maravilhosa do Cinema vol. 2.



Profundo e mágico!