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Newsletter - 24/04/24


Paradeiro.


Trilha sonora para essa edição: Paradeiro, Arnaldo Antunes


Pele, poesia, compasso. 


Percurso, paradeiro.


Palco, pelo.


Escrevi essa série de palavras sem nenhuma razão específica.


Achei engraçado que em toda a sequência tem uma só palavra que não começa com p: compasso. Mas em uma poesia concreta se transformaria facilmente em com passo. E então teríamos passo. A palavra com p que faltava.


Desde que escrevi essas palavras, algumas coisas mudaram. A semana foi agitada, emocionalmente. Tenho investido muito (mesmo!) no meu destino compositora. É uma das minhas facetas artísticas e sim, eu acredito nela como sina. 


O problema é que eu não consigo ser muito objetiva. Não como eu deveria, em se tratando de algo que eu desejo encarar como mais do que um passatempo. Me falta destreza, me falta leveza. Tudo parece bonito demais, maravilhoso demais, frágil demais. Esse fascínio me desestabiliza, e eu já não consigo discernir desejo de medo, medo de intuição, intuição de entendimento. 


Me lembrei de uma música do Arnaldo Antunes. Na minha cabeça, a letra era assim: haverá paradeiro para o nosso desejo no momento propício. Fui verificar e vi que não, não é assim. O que só corrobora com os sentimentos que essa novidade (era um sonho que eu achava irrealizável) tem suscitado em mim. 


Percurso, paradeiro. É como eu sinto o que eu faço. Quando escuto uma poesia virar música, é como se eu tivesse voltando a um lugar antigo, a um jardim de inverno, à uma casa outrora conhecida, mas esquecida. Verde, úmida, cheia de plantas, flores e frescor. 


Há 8 anos eu voltei a visitar o rio Negro. Não era um rio desconhecido, mas eu não o via desde a infância. De todos os lugares que eu revisito para criar, a Amazônia é certamente o que mais me atrai. Não há nada para mim mais parecido a conforto, encontro, casa, que o verde amazônico profundo. E as águas doces e quase sem sedimentos dos rios de águas negras. 


Águas negras me evocam paz, lar. Águas turvas, onde eu achava que tinha deixado meu coração, ainda me inspiram, mas estão bem longe desse sentimento de estar habitando um lugar que sempre soube meu. 


Uma vez escrevi que meu coração pertencia às duas margens do Prata. Hoje não gosto de dizer que meu coração pertence a alguma coisa. Pelo menos não só a uma. Minha volta ao rio Negro, ao rio Amazonas, ao Javari, ao Prata e ao Saint Laurent me inspiram, me afagam, me mostram caminho, poesia, rios compassos. Meus passos em direção aos rios. Cada momento da minha vida. Ritmados, tornados músicas. 

O vento úmido do Negro, o vento frio do Saint Laurent. Meu pelos que se agitam, se arrepiam. Meus rios, meus palcos. 


Sim, haverá paradeiro para o meu desejo, no momento propício. 


Até breve,

 
 
 

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