Newsletter - 17/04/26
- Anna Davison

- 17 de abr.
- 4 min de leitura
Horas perdidas e a tensão de cada cor.
Trilha sonora para essa edição: Dialogue du vent et de la mer, Claude Debussy
I
Tem uma hora do dia que é perdida. Quer dizer, perdida para qualquer coisa que esteja fora de mim. A hora do lusco-fusco, quando o sol já se pôs, mas o escuro da noite ainda não chegou. Nessa hora, as cores ficam lavadas e eu me sento para ver o dia acabar. É preciso estar perto da janela, para poder olhar a escuridão chegando. Durante a hora perdida, me acho: estou entre o som estridente das maritacas na janela. Pelo menos agora, quando me despeço do Brasil,
da casa dos pais,
da cidade que vai ser sempre a minha.
Tem uns momentos na vida em que só é possível observar. Tentar sentir o próprio pulso e perscrutar o que se sente para além das dores no corpo, do cansaço antecipado da mudança, do medo de deixar tanto para trás. Mesmo sabendo que nunca se deixa nada realmente para trás. É como se a gente fosse construindo um delicado espaço dentro para guardar o que, fora, parece remoto.

II
Machuquei o ombro há uns meses e tenho feito fisioterapia todos os dias. Ontem e hoje, enquanto caminhava para o consultório, senti uma espécie de tristeza meio vaga. Como se o caminho me levasse para um lugar ainda mais interno que os ligamentos do meu ombro direito. Chegando lá, reparei em todas as cores dos objetos que usamos para fazer os exercícios que, supostamente, me deixarão sem dor, em algum momento do futuro. Dois ou três meses, me diz o fisioterapeuta. Será preciso que eu siga com os exercícios sozinha. Lembrar das cores dos vários elásticos. Indicativos de sua tensão.
Acho que minha tristeza tem uma tensão cinza, alguma coisa entre o laranja e o azul.
Gosto dos exercícios com as bolas cor de rosa. Elas pesam um quilo e mal cabem nas minhas mãos. Segurá-las exige uma concentração parecida com a do ato de escrever.
III
Dois ou três meses pode ser o tempo de escrita de um livro de poemas, desde que haja muito tempo para a escrita. Diariamente. A verdade é que tenho mais disciplina com a fisioterapia e com a observação da minha hora perdida. Como se a escrita fosse uma espécie de capricho que nunca vai me levar longe o suficiente. Até porque o caminho que percorro enquanto escrevo é como aquele que me leva até os exercícios para o ombro, todo voltado para dentro. Como uma espécie de ultrassom que cria as imagens do que me vem ao pensamento a partir do som das palavras que pesco entre conversas, nas sombras, ou nos muitos caminhos para fora que ainda me forço a fazer.
É que o desejo me leva mais e mais para dentro. Para a busca pela tensão laranja que habita alguns dos meus nervos. Quero crer que habita, pelo menos, mas antes é preciso recuperar a mobilidade, mexer as articulações e o espaço delicado onde está o que me atrai. O cor de rosa redondo e liso que eu tenho dificuldade de aceitar que pode ser meu. Talvez por isso, o livro que ando tentando terminar já leva dois ou três anos. Quiçá mais. Parece que o fim vai se deslocando mais e mais, a cada vez que o sol vai embora. Como se a escuridão trouxesse consigo a impossibilidade de ver o que já mora no escuro.
Irremediavelmente.

IV
Preciso mesmo é de solidão
e de pão,
como bem disse Adília
Para observar com todo o cuidado as horas perdidas, em que nascem todos os poemas que serei capaz de escrever, é preciso solidão. A mesma solidão que não existe quando se está
na casa dos pais,
na cidade que vai ser sempre a minha.
Porque a verdade é que a solidão não é sentida quando há muitas cores. É preciso ajustar a tensão, diminuir as luzes e fazer um chá. De camomila, de preferência. Se quiser, pode colocar uma música. Mas tem que ser bem calma. Observe:
Os carros parando
no estacionamento ao lado
do prédio as luzes
dos apartamentos do bloco
em frente às árvores
onde moram as maritacas
Só depois veja
as sombras que entram janela
adentro com o som
do canto das aves verdes
estridente como o coração
que bate e é sentido
na mesma mão
que segura a xícara
de chá quente
azul como o elástico
que essa mesma mão
segurou antes, de manhã
para exercitar o que impede
o movimento
da escrita
V
Recentemente, uma escritora que eu admiro muito disse que nossas poéticas conversam. Quando eu disse que isso tinha me deixado toda toda, ela disse que conversam muito. Isso, por si só, gera um salto de mais de dois ou três meses. Suspende a dor, a incerteza e a agonia de escrever pouco, de levar dois ou três anos para terminar um livro, e de mais de quatro décadas para me proclamar escritora.
Como se a voz, a minha voz, nascida das horas perdidas, pudesse ecoar numa espécie de bailado com as vozes das maritacas verdes.
Pensando bem, não sei qual a tensão do verde.
VI
Fui almoçar com meus pais. O dia estava cinza e garoava. Meu pai comentou que em dias assim, sem sombra, existe um convite à contemplação e ao conectar-se com o natural. Na hora, lembrei desse texto já meio escrito. Uma espécie de coincidência, tão presente quando estamos nos processos de escrita. Como se entrássemos em uma sintonia com aquilo que está saindo da ponta dos dedos. Ou apenas como se a abertura para a percepção dos temas em que estamos pensando estivesse amplificada.
Um dia sem sombras é composto inteiramente de horas perdidas. As únicas em que verdadeiramente olhamos para o escuro que levamos no peito. É um dia perfeito para escrever (ainda que eu me alimente de olhar as sombras).
VII
Ontem fui assistir a um concerto da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. O maestro explicou as obras que seriam executadas e chamou atenção para as cores vibrantes dos sons de uma peça do Maurice Ravel. Ao escutar a música, entendi a tensão do verde, é a mesma do tom das asas das maritacas. Estridente.
Até breve!
Anna


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