Newsletter - 27/02/26
- Lívia Vitenti

- 28 de fev.
- 3 min de leitura
Trilha sonora para essa edição: Mona Ki Ngi Xica, Bonga

Numa noite dessas eu acordei com os dois primeiros versos de uma poesia ecoando no quarto. Isso me é incomum. Na maior parte das vezes, sonhos com títulos, temas, melodias e até enredos. É raro que o lampejo venha quando estou entre o sono e a vigília. Mas foi um desses casos. Era como se alguém tivesse sussurrado os versos, e eu milagrosamente fui capaz de acordar e gravar.
Há um nome técnico pra esse estado mental: hipnagogia. Segundo estudos, entre outros aspectos, quando estamos nesse estado as imagens, sons e sensações aparecem sem repressão ou censura, transformando-se em coisas concretas.
Eu gosto dessa explicação, mas prefiro outra, a de Ailton Krenak: “eu não interpreto sonhos, eu recebo sonhos”.
Aqui não importa em que momento e como eles se dão. Eu sempre entendo esses momentos involuntários de criatividade como presentes. Queria sim, ter mais controle sobre isso. É bem agradável receber um material quase pronto, ou pelo menos um bom ponto de partida para uma criação. É como se eu não tivesse me esforçado por ela, embora tudo o que meu cérebro cria (ou recebe) se relaciona diretamente com a minha curiosidade e com meu arcabouço intelectual.
Os dois primeiros versos vão assim: não me chame de mimada, me chame de rainha. Porque o que lhe parece capricho, é o peso de ouro que carrego em meu peito… Quando os gravei, ainda sonolenta e bem baixinho pra não acordar quem dormia ao meu lado, não sabia bem de onde vinham, mas sabia que não eram inteiramente meus. Melhor dizendo, sabia que eram meus, mas de um jeito que só a noite e a sonolência me permitiriam acessar.
Lembram do meu censor, cada vez mais pequenininho?
Eu sonhava muito com o porão de uma casa. Era sempre de difícil acesso, e eu tinha que descer por engrenagens e escadas difíceis, emboladas, algo como uma gravura de Escher, mas sempre pra baixo. Nas vezes que chegava, era sempre um lugar escuro, perigoso. Isso quando não se tratava de uma câmara de tortura. Ainda não sei o que se esconde no fundo do meu subconsciente. O que sei é que esse sonho tem sido substituído por um onde me vejo entrando em uma casa sim, vazia, mas ampla, arejada, de dois andares. Num desses sonhos consegui subir a escada, sem grandes esforços, e lá estava uma criança, feliz.
O que quer que seja que me levava pro porão, lentamente está cedendo espaço pro que me leva ao segundo andar, às vezes ainda em construção. E eu acho que é justamente quando consigo subir essas escadas que sou presenteada com sonhos e lampejos.
No dia após ter ouvido alguém soprando aqueles primeiros versos, já citados , me sentei e terminei uma poesia. Me parece surpreendente - e muito corajoso - ser capaz de continuar quebrando a barreira da censura mesmo após ter saído desse estado entre o sono e a vigília.
Por isso gosto da ideia de ter recebido algo, mesmo que esse presente seja de mim pra mim mesma.
E agora tenho um novo objetivo: encontrar outros lugares e estados onde a censura ainda não acordou. Especialmente, vou anotar e gravar tudo o que não parece meu. Tudo o que eu diga: ah, não pode ser, devo estar tirando essa frase de algum lugar.
Saber receber também é uma forma de construir.
Deixo uma outra poesia vinda em sonhos, pra vocês:
Unir a casa em construção ao quarto amplo e bonito.
Unir a janela aberta de par em par a seu corpo em cima do meu.
Unir o sol fresco da manhã a suas mãos abertas na minha cabeça e no meu rosto.
Unir a sua pele, tão diferente da minha, ao beijo que estremece meu peito e umedece meus lábios.
Unir nossas estrelas a um só firmamento.
Romper finalmente o vitral.
Saber-nos grandes, brilhantes.
E saber-nos livres, presentes.
Mistérios dos céus.
Até breve,
Lívia



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