Newsletter - 06/03/26
- Anna Davison

- há 4 dias
- 3 min de leitura
Como nasce um poema. Ou uma carta curta porque a correria anda grande.
Trilha sonora para essa edição: Sun//Rain, Clariloops
I
Deitada na rede ao lado da janela, tomo um café já quase morno e leio um livro de poesia. Penso que nunca mais consegui escrever assim, como fazem os poetas. Sinto um comichão nas mãos, estalo o dedo mindinho com o polegar da mesma mão. A esquerda. Aquela que deveria ser a da criatividade? Já não sei se essa relação entre hemisférios do cérebro e lados do corpo ainda é válida. Assim como também já não sei se posso me dizer poeta.
Tem alguma coisa de rotineiro que precisa acontecer para que eu veja a poesia. Mesmo que eu ande fotografando as sombras muito geométricas que se formam nas paredes da casa dos meus pais, onde estou há três meses.
Estar nesse lugar há três meses significa que estou morando aqui?
Mesmo quando estou à deriva?

II
Dou aulas na pós em escrita criativa da PUC/MG e a dessa semana foi uma espécie de seminário, em que as alunas deveriam conduzir uma oficina de escrita. Elas propuseram um olhar sobre o cotidiano, o circuito fechado em que nos mantemos dia após dia.
Abrir os olhos. Desejar não tê-los aberto. Sentir a boca seca e o hálito da boca mal dormida. Contorcer-se o mínimo possível para alcançar o copo de água na cabeceira. Tomar cuidado para não virar a água sobre o livro. Respirar fundo. Olhar para o quarto ao redor. Se espantar pela enésima vez com a luz que se filtra através da persiana. Sentar-se na cama. Desejar deitar-se de novo. Colocar os dois pés no chão. Sentir o toque com a madeira. Levantar. Caminhar até o banheiro. Finalmente acordar com a água fria na cara. Torcer para escrever um poema. Hoje.
III
Todo o processo da manhã me toma muito tempo. Um despertar que se estende enquanto a marca que o travesseiro deixa na bochecha some. Uma espécie de ampulheta. Só depois que a pele volta a ser lisa é possível escrever. Antes é preciso estar.
Observar meus sons e aqueles que entram pela janela aberta ao lado da rede de onde antes leio e depois escrevo.
Sentir que as costas doem e o som dos pássaros nem sempre é tranquilizador.
Beber muita água e levantar para ir ao banheiro torcendo para não me distrair.
Forçar a repetição para provocar o parto do poema.
Deveria ser mais fácil?
IV
Sempre ouvi dizer que a inspiração é só um pequeno pontapé, o suor é que faz o trabalho nascer. Percebo a cada letra desse texto que é verdade. É preciso fazer.
Sentar todos os dias. No mesmo lugar. De preferência com a mesma incidência de luz. O que não é possível nos dias de chuva. Nesses dias, é preciso ouvir mais que olhar. Abrir o computador e, no computador, uma nova página. Em branco. Olhar para fora da janela. Reparar na árvore. A mesma árvore que está ali desde que você se lembra de olhar pela janela. Antes era possível apoiar o queixo. No mesmo parapeito onde hoje cabe o joelho. Fletido. Em março não tem flores. Não as amarelas e marrons que você sempre achou que pareciam pequenos sorvetes de laranja. Hoje você pensa que nunca tomou sorvete de laranja. Lhe parece, aliás, que você não iria gostar de sorvete de laranja. Agora basta escrever esse parágrafo e pensar. Nasceu um poema.

V
Há pouco, vi meu reflexo no espelho e me dei conta de que não sou diferente dos peixes bonitos no laguinho aqui da quadra onde estou com meus pais e meu companheiro. Eles se aproximam da borda quando alguém se debruça sobre a água. Torcendo para ganhar um farelo de pão para encher a boca. Eu me debruço na janela quando ninguém se aproxima. Torcendo para ganhar alguma palavra para começar os textos que me prometi escrever todos os dias.
A superfície do espelho me lembrou o espelho d’água.
Quem define o que serve de espelho?
Quem define o que é um poema?
VI
O canto dos pássaros é dirigido a outros pássaros. Meus textos são dirigidos para alguém que não identifico. Também não sei se os pássaros identificam. Saber quem vai ler altera o caminho das palavras. Mas não o dos peixes.
À deriva, eu e eles.
Até breve!
Anna
P.S. A sarabatana está de cara nova! E estamos com chamada aberta. Visite nosso site e veja os detalhes, se quiser publicar com a gente.
📚Li pouco esses dias, estava criando a nova home da Sarabatana e cuidando da chamada. Mas estou lendo I love Dick, da Chris Kraus, e Flecha, da Matilde Campilho. Dois livros bem diferentes um do outro. Dois livros, de algum modo, estranhos, exatamente como eu gosto.



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