Newsletter - 20/03/26
- Anna Davison

- 20 de mar.
- 4 min de leitura
Hoje de manhã entrei no mar.
Trilha sonora para essa edição: Lightsong, Channelers
I
Hoje de manhã entrei no mar. Me concentrei no formato das bolhas da espuma das ondas que quebravam quase violentas contra minhas coxas. Reparei no brilho das pequenas partículas de areia misturadas à água. Pensei no meu irmão. Pensei em poesias. Pensei em como tenho muito para agradecer.
Hoje de manhã entrei no mar e esse não é um texto sobre gratidão ou coisa que o valha. É, como muitos outros dos meus textos, sobre o que está em cada coisa, o detalhe em que não prestamos atenção. Ou, talvez, sobre o brilho. Ou sobre o azul que tudo cobre.

II
Decido procurar no dicionário o significado da palavra brilho. Para além da informação de que se trata de um substantivo masculino, que de nada me serve, aparecem alguns sinônimos e várias surpresas:
1 Luz viva e intensa; cintilação, resplandecência, resplendor.
2 Luz, natural ou artificial, refletida por um corpo: O brilho da prata. O brilho da madeira esmaltada.
3 Qualidade do que é nítido; clareza, limpidez, nitidez: O brilho de certas cores em suas últimas telas.
4 fig Qualidade do que é grandioso, opulento; magnificência, opulência, pompa: O brilho dos casamentos da realeza.
E por aí vai, enquanto eu estaciono e leio repetidamente “o brilho de certas cores em suas últimas telas”. Confesso que, racionalmente, essa frase não me traz nenhum sentido. O que são as últimas telas de uma cor? Imediatamente me transporto para um museu e lembro das rachaduras na tinta das telas mais antigas. Veios separando o brilho das cores em suas últimas telas. Espaços de respiro onde o escuro predomina.
III
Jogo a frase “o brilho de certas cores em suas últimas telas” no google e qual não é minha surpresa quando a resposta é que ela “refere-se frequentemente à fase madura ou final de pintores impressionistas, notavelmente Claude Monet, cujas obras tardias (como a série Ninféias) intensificaram o uso da cor e da luz”.
Ver essa obra de Monet é mesmo parecido com entrar no mar. Azul, luz, um je ne sais quois que ofusca.
Também saímos da sala como que cobertos de sal.
É assim que quero escrever, intensificando o uso da cor e da luz.
IV
Me volto, então, para outras definições: luz viva e intensa, ou luz natural refletida por um corpo, ou ainda, clareza, nitidez, limpidez, ou, por fim, magnificência. Tudo contido em um minúsculo grão de areia, misturado à água do mar. Será ele, o grão de areia, o responsável pelo gosto salgado que toma minha pele?
É no detalhe que mora o divino.
Hoje de manhã entrei no mar e me senti mais perto desse divino. Eu, o ponto escuro em meio ao brilho, um veio sólido cercado pela água.

V
Hoje de manhã entrei no mar. Boiei com os ouvidos dentro da água. Imaginei os milhares de peixes e outras criaturas em quem eu estava tocando de algum modo através da água. Eu e eles compartilhando uma única pele fria. Lembrei do poema de Adília Lopes:
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
VI
O alívio que não sei dizer, que vem da certeza de estar no lugar certo, mesmo que os poemas que eu ande escrevendo me estejam escapando, como se estivessem, de fato, se tornando escorregadios demais. Eu persisto. E agradeço, enquanto levo
o brilho do mar nos cabelos grisalhos.
O brilho da pele molhada.
O brilho da escama do peixe que comprei recém-saído do mar.
O brilho da ondulação das pequenas coisas que nos atravessam e tocam a cada dia.
O brilho do azul que tudo cobre.
VII
Em breve vou voltar a Montreal. Dessa vez, não temos data para ir embora. Será preciso que eu aprenda a ver poesia nas esquinas frias de lá. Nos outros azuis. Nos olhos de pessoas tão estranhas a mim quanto os peixes do mar do Brasil.
Será preciso viver nas escamas de ruas que já percorri como turista. Achar o brilho. Explorar a cidade com os ouvidos sob a água. Me sentir como numa mesma pele, Montreal e eu.
Hoje de manhã entrei no mar. Uma forma de despedida, uma forma de preparação.
Até breve,
Anna
📚Sigo lendo pouco, ainda às voltas com I love Dick, da Chris Kraus, um livro de cartas, como as que pedem a chamada aberta da Sarabatana. Se quiser publicar com a gente, visite nosso site e veja como!



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