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Newsletter - 13/03/26



Nós encontramos verdades para o que carregamos no peito.


É fé? Pode ser. Mas fé em que? 


Quando nós cismamos em acreditar em algo, é muito difícil nos convencer do contrário. O problema é que, por mais que sejamos amigas de nós mesmas (e quem avisa, amiga é), algumas vezes essas crenças podem ser traiçoeiras. Ferozes, mesmo. 


É que nem sempre esse convencimento nasce de nós mesmas. Ou nasce de uma vez só. 


Há muitos anos, tive um colega antropólogo que também era astrólogo. Na época ele estudava astrologia ayurvédica, e estava fazendo o mapa de quem quisesse, de graça mesmo, para testar seu aprendizado. Eu morava com mais três colegas de mestrado, todos homens, e nós quatro nos reunimos com esse antropólogo/astrólogo na nossa casa, para as leituras. 


A primeira verdade sobre mim: eu não teria mais o mesmo signo. Uma das minhas verdades mais antigas, por mais que hoje eu esteja bem afastada da astrologia, é essa sobre ser ariana. Sou orgulhosa mesmo, acho um signo foda! Essa eu não aceitei, mas continuei escutando o que ele tinha a me dizer. 


Eu fui a última. Para os homens, ele fez previsões auspiciosas. Todas sobre sucesso na carreira e na vida amorosa. Menos para mim. Segundo ele, eu seria uma grande antropóloga, com reconhecimento internacional, muito respeitada no meio acadêmico. Mas eu seria solitária, amarga, sem filhos. Se eu tivesse filhos, seria só um, e ainda assim só até os 28 anos, depois disso, nada feito.


E ele disse com que idade eu iria morrer. 


Minha irmã e uma amiga estavam presentes. Me olharam assustadas e me disseram: você não pode acreditar em nada do que ele disse!


Eu não acreditei, mas não esqueci. Isso aconteceu há mais de 20 anos, e eu não esqueci nada. 


A gente se convence de maneiras muito particulares. Esse cara estava convencido à sua maneira, bem de acordo com a sua socialização. Por sorte, todas as evidências, as provas que poderiam corroborar com essas previsões tão desastrosas não se deram. Eu não me tornei a super antropóloga, teórica citada e publicada. Eu não sou sozinha, nem amarga. Tive um filho aos 33 anos. Ele errou em tudo. Porque dentro do peito dele, ele levava uma verdade: mulheres bem sucedidas na profissão não podem ser bem sucedidas nas relações pessoais. 


Mas algumas crenças pessoais podem sim, virar uma paisagem tão conhecida que a gente simplesmente deixa de vê-las, e isso pode ser cruel ou violento, aprisionador. Eu não acreditei nele, mas não esqueci. Porque ele falou com crenças aprisionadoras que eu carregava no peito muito antes dele prever qualquer coisa. Mas eu também levava verdades que me libertavam, que me faziam correr atrás de promessas. Várias verdades em um mesmo peito. 


O problema não é acreditar ou duvidar. O perigo está em escolher um caminho que nós mesmas vamos acomodando para que a crença seja confirmada. Percorrê-lo automaticamente convencidas de que há um só deles. 


Mas há vários caminhos. Eu escolhi escrever. Porque ao escrever o que eu levo no peito, isso sai de mim e vira matéria no mundo. Deixa de ser crença. O medo passa a ser ação e a página em branco passa a ser página preenchida. E então eu descubro que o que eu carregava com tanta certeza, não era bem como eu pensava. 


Será que a dificuldade de escrever é prima do medo de se conhecer. Ou ainda, o medo de descobrir que estamos erradas em nossas certezas absolutas? A palavra escrita, pronunciada, fora de nós mesmas, não pode ser explicada nem defendida. Ela está no mundo e quem nos lê, nos lê com as lentes das suas verdades. 


Eu aprendi que minhas verdades são verdadeiras quando elas são calmas no meu peito, e quando elas chegam a mim através de lampejos. De qualquer uma que me desorganize, eu duvido. Eu aprendi que o que eu levo no peito, e que passa a existir fora dele através do que eu escrevo me ajudam a alcançar as estrelas, as mesmas que foram tão mal interpretadas pelas verdades de um homem. 


Eu me recuso a morrer com a idade que ele previu.


Afinal, eu sou ariana. 


Até breve,


Lívia 

 
 
 

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Adorei suas (des)construções de verdades e seu caminho para alcançar estrelas.

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