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Newsletter - 06/02/26

O grande ar das palavras.


Trilha sonora para essa edição: Loneliness is a state of mind, The Kyoto Connection


I


Tem um enorme bolsão de ar entre minha pele e o mundo. Para dentro, nesse emaranhado de nervos, veias, músculos, ossos e sangue, pulsa alguma coisa que não ando sabendo definir. Para fora, o bolsão parece impedir que eu me sinta parte do emaranhado de sons, cheiros, texturas e luzes.


II


Há dois dias, viajei de carro por quase mil quilômetros. Da janela em movimento, reparei nas árvores secas e nas verdes também. Gosto de olhar a forma das secas contra o céu muito azul do meio dia de verão no coração do Brasil. Penso que elas se parecem com bailarinas. Congeladas em um movimento iniciado muito antes da estrada ter sido construída.


Se parecem comigo, imóveis no bolsão de ar que tudo comporta, incapazes de se mexer (será que se comunicam?).



III


Estou passando por uma mudança grande, não porque seja diferente das tantas mudanças que venho vivendo desde 2018, mas por ter o potencial de se tornar uma parada mais longa. Um porto (quase) definitivo se parece com uma jaula? 


Tenho medo.


Essa é a frase que mais me aparece quando tento definir a minha incapacidade de me sentir parte de alguma coisa. Então procrastino, ao invés de escrever, corto as unhas, arrumo meus cabelos recém cortados, passo um batom muito vermelho, mando mensagens nada urgentes. Fico parada 


e observo.


IV


Fecho os olhos para sentir as pulsações muito fracas do meu coração operando com pressão baixa. Tudo meio fora de foco.


Respiro fundo e sinto o cheiro do almoço que algum vizinho está preparando. Carne.


De novo, para dentro.



Para fora, pareço tão imóvel quanto as árvores secas. Acho que meus novos cabelos se parecem um pouco com elas também, voltados para cima, buscando acessar alguma coisa que me transcende. 


Nada parece se alterar diante da grande mudança que se aproxima.


V


Enquanto espero, o mundo parece em ebulição. Minha grande mudança até parece pequena, não fosse ela minha. 


Se bem que, pensando bem, o mundo alguma vez esteve calmo?


As guerras que pipocam nos quatro cantos também acontecem aqui, na minha pele fria, no meu intestino instável, no meu cérebro cansado. Para não pensar, abro o Instagram. Me deparo com um poema da peruana Blanca Varela:


Un poema

como una gran batalla

me arroja en esta arena

sin más enemigo que yo

yo

y el gran aire de las palabras


VI


Ainda me assusto com as coincidências que nascem nesse grande bolsão de ar que nos conecta. Não há inimigo maior que eu mesma e minhas palavras. Ainda que, sim, seja só através delas que consigo vislumbrar a possibilidade de existir.


Talvez por isso mesmo eu já não escreva como antes, agora que estou nesse entre, esperando o que a vida vai me trazer na próxima etapa menos errante. O que talvez seja causa e sintoma da dificuldade de pertencer enquanto tudo muda tão rapidamente fora da minha pele.


A verdade é que não sei o que será de mim se não tiver já em vista a próxima cidade, o próximo país, ainda que eu deva admitir que é na calmaria que escrevo mais. Não sou do time que escreve quando sofre, minha criatividade se alimenta do contentamento e do conforto. Então, aos poucos, me despeço dessa etapa e observo, anotando mentalmente poemas que esqueço na próxima curva.


Releio essa carta e fico satisfeita. Sinto um leve estremecer que me faz achar que, sim, eu conheço essa estrada, registrei nas retinas cada uma das árvores do caminho.


Olha, elas estão dançando!


Um beijo,

Anna


📚Esse ano já li Parade da Rachel Cusk, Suíte Tóquio da Giovana Madalosso, Monique se liberta do Édouard Louis, e Problema de pronúncia da Ana Maiolini. Também reli Asma da maravilhosa Adelaide Ivánova. Acho que o que mais me marcou foi Parade, pela forma tão inconvencional. Gosto mesmo de coisas que subvertem a forma padrão.


📚Agora estou lendo Triste tigre da Neige Sinno. Soco no estômago atrás de soco no estômago.

 
 
 

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