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Newsletter - 08/08/25

Atualizado: 22 de ago.

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Salve, salve


Eu tinha começado essa newsletter falando sobre ter um dom, um sonho, um desejo, e como a nossa vida muitas vezes nos leva por outros caminhos, e só redescobrimos esse dom anos mais tarde. Não acho que isso tenha acontecido dessa forma comigo, mas como já falei por aqui, substituí por muitos anos o desejo de escrever prosa e poesia pela obrigação de escrever artigos científicos.


Estava então nessa toada, quando recebo uma mensagem de uma amiga muito querida, me dizendo que estava se separando. Um casamento longo, com uma pessoa que parecia muito companheira. Não vou me alongar nos acontecimentos que culminaram no fim do casamento, mas sim na longa conversa que tivemos ontem sobre como postergamos o desejo de ser lida, escutada, vista. 


Nascemos podendo ser qualquer, ou quase, qualquer coisa. E de fato somos essas coisas todas que desejamos. O que nos falta é aprovação, reconhecimento, visibilidade. Se vemos uma pessoa tirando fotos no celular, pensamos se aquela pessoa é fotógrafa ou não? Ou todos nós somos fotógrafos? O mesmo vale para a escrita, música, filosofia, entre tantas outras atividades que podemos realizar. Mas minha pergunta não é sobre diplomas, técnicas e conhecimento formal. É sobre o olhar, do outro sobre nós. 


Nosso cérebro passa por grandes transformações ao longo da vida. Uma delas é justamente na idade que eu e essa minha amiga estamos. Segundo uma pesquisadora que ela leu, o cérebro feminino se reconfigura para não se preocupar mais com a maternidade, mesmo que a mulher não tenha sido mãe. Nessa reconfiguração, ganhamos espaço e potencial para nos dedicar a outros interesses, ir por novos caminhos, neuronais e na vida do dia-a-dia. 


Novamente, não estou interessada nos aspectos técnicos dessa pesquisa, nem nos pormenores dela, por mais importante que isso seja. O que me interessa é a conclusão que o meu cérebro chegou bem rápido quando escutei a teoria. Ah, talvez seja por isso que desde os 40, 41 anos estou me interessando e me permitindo desenvolver potenciais que ou eu achava que não tinha, ou para os quais eu tinha um talento reduzido. 


Como falei em outra newsletter, meu censor anda muito, muito calmo. Diria que escondido mesmo. Quem sabe nessa reconfiguração que, tenho certeza, não é só do meu cérebro, ele tenha perdido espaço. Eu gosto de imaginar ele em um quartinho pequeno, um almoxarifado sem janelas, todo marrom, bem ao estilo de repartição pública das antigas. Gosto de imaginar ele bem milico, sentadinho, esperando que algum serviço apareça pra ele. E com ódio porque o serviço está cada vez menos demandante, mas ele não pode sair do castigo. 


Vou deixar esse censor nesse quartinho até eu entender, de verdade, qual a função que ele exerce na minha vida. Quem sabe eu consiga me libertar dele, ou substituí-lo por filtros mais saudáveis para mim. 


Pensando bem, vou escrever um conto com essa imagem.


Milton e Chico escreveram, a partir de uma música de Pablo Milanés, que já foi lançada uma estrela, pra quem quiser enxergar, pra quem puder alcançar, e andar abraçado nela. 


Eu vejo essa estrela, os caminhos que quero alcançar, e quem eu quero que me enxergue. E enxergue essa estrela.


Deve ser da idade. 


Até breve, 


Lívia

 
 
 

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