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A Experiência de mim mesma

Paula Marques

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Eu conquistei rapidamente a base para sobreviver na nova cidade em que vim morar, Montreal. Não conheço ninguém, nem precisei para poder me virar. Sou uma imigrante desacompanhada neste território vasto, e para mim desconhecido, que é o Canadá. Todos os dias às dezessete horas, troco o trabalho pelo vazio. É quase verão e já não tenho a desculpa da neve e do clima para justificar a minha inércia. A minha turbulência é tal que, hoje, saí com o guarda-chuva aberto e, apenas quando cheguei no metrô, me dei conta que não chovia. Está tudo bem, mas não estou feliz. Preciso de um desafio ou algo que me faça vibrar. Prezo muito pela minha segurança, mas dentro dela não cabe a potência da minha mente inquieta.

 

O tempo passou rápido pelo meu desafio de escrever aqui qualquer coisa que me ajudasse a ter uma catarse da experiência de mim mesma. O barulho do ar-condicionado supera o da minha consciência, me alivia. Em teoria, tenho tudo. E sinto um grande nada, apenas um fluir constante de indecisões e paralisia. A esperança de um amanhã do tamanho dos meus sonhos me faz acordar a cada dia. O tempo passa, nada acontece. Quando acontece é breve o gosto e, de novo, me atormento. Me torturo por não agir em direção ao almejado, quando tudo o que está acontecendo é resultado das ações no passado. Percebo tudo e, ainda assim, não me redimo.

É hora da pausa para meu cigarro. Está chovendo lá fora, em sintonia com aqui dentro. Senti inquietação por querer subir e continuar meu devaneio. Lembrei que essa semana havia decidido que meu objetivo esse ano seria ser saudável, então, comprei uma maçã, muito peixe e me matriculei em um curso de yoga que não fui. Que limitada essa noção contemporânea que o importante é ser saudável. Na semana anterior, havia decidido que a solução era fazer kung-fu. A arte marcial seria uma forma de materializar minha mente agressiva, minha raiva, meus traumas. Poderia dizer a minha resolução da semana anterior, mas poupo o texto para contar que, no final, meu corpo chora, atravanca e me obriga à reclusão. Depois me torturo, em solidão escolhida, no meu lindo lar. 

Cansada de mim mesma, decidi não fazer nada que requeira um novo lugar, novas pessoas, nova atividade. Seja lá o que é que eu preciso nesse momento, na ingenuidade de acreditar que minha alma no fundo sabe, mas que é ridícula na arte de se comunicar, resolvi que devo agir apenas a partir de mim mesma. Algo que comece e termine em mim. Por isso, escrevo. Escrevo porque não posso encontrar paz se não agir. Na maior parte dos dias, me distraio com filmes, séries, documentários, livros. Me submeto a um ser passivo dos grandes criativos e pensadores, sem ter como expulsar tudo que digeri. Contente fui ao escrever minha tese de mestrado, com tantas peças de quebra cabeça para juntar, na ilusão de achar que tenho a resposta para os problemas do mundo que não têm outro destino que o de preencher folhas de papel. O mundo seria bem melhor se fosse governado por acadêmicos.

Uma parte de mim sabe que essas palavras são o começo de mais um recomeço. Não é a primeira vez que preencho páginas na esperança de ter algo a dizer, na tentativa de que a minha vida não pertença apenas a mim, de que o meu existencialismo e o conjunto surrealista de minhas experiências encontrem um lugar para descansar. Assim será hoje, mãnana ya se verá.

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