Newsletter - 27/03/26
- Lívia Vitenti

- 30 de mar.
- 3 min de leitura

Trilha sonora para essa edição: Reis e Rainhas do Maracatu, Milton Nascimento
Minha professora de canto uma vez me disse pra eu diminuir um pouco o som da corte que vive na minha cabeça.
Eu achei muito perspicaz da parte dela, só que não entendi na hora que ela estava falando de uma corte suprema, mas sim uma corte real. Imaginei reis, rainhas, princesas e príncipes morando dentro de mim. Mais ainda, imaginei pajens, aias e damas de companhia, mordomos, conselheiros, uma verdadeira hierarquia. Todos eles bem coloridos, dançando. Pensando bem, foi uma imagem bem bonita que surgiu na minha cabeça, uma corte real pintada como pintaria Bosch, com as rosa e azul predominantes.
Eu já cansei de falar do meu censor por aqui. Ele sempre esteve muito presente em todas as minhas empreitadas artísticas e intelectuais. E ele é sempre um militar de óculos aviador, bem sombrio, com roupas verde-oliva, sentado em uma sala escura, em uma ambientação típica dos filmes brasileiros sobre a ditadura militar.
Me chamou muito a atenção o fato de ter pensado em uma corte real ao invés de uma corte suprema, mas me intrigou muito mais a disparidade das duas imagens. Ao pensar em uma hierarquia, ficou muito nítido pra mim que há realmente uma mudança interna, que estou cada vez mais sabendo distinguir o que de fato desejo, e o que é, na realidade, necessidade. Que estou sabendo distinguir carência e suficiência; estou sabendo quando ser auto-suficiente e quando pedir ajuda. E ao pensar em cores, insisto que as pessoas na minha cabeça estavam vestidas com cores claras, e elas estavam em um ambiente claro e cálido. Havia reis e rainhas, é certo, mas não me veio a imagem de um padre ou de um juíz. Essa mudança de eixo é muito importante, significa que estou sabendo lidar com forma, volume e presença.
Cantar é se expor, escrever é se expor, estar em cima de um palco ou tocando em um desfile é se expor. Fazer um vídeo recitando uma poesia ou dando opiniões sobre um livro é se expor. O que fazemos com essa exposição é o que importa. O rei talvez não goste muito, a rainha talvez se envergonhe. A princesa talvez me ache cafona e o príncipe talvez se preocupe com a imagem dele. Já a aia e o bobo da corte vão dançar e cantar comigo, me mostrando que uma parte de mim sempre será imune ao olhar crítico dos outros - e de mim mesma - sobre mim.
E é bom pensar em tipos de hierarquia. Há um equilíbrio nisso, nada muito anárquico (Bakunin que me perdoe), mas nada de totalitarismos por aqui. Prefiro pensar em um movimento contínuo entre a auto-censura e a auto-indulgência, sem muito controle sobre isso. Como uma caravana, com uma liderança que pode variar de acordo com a necessidade do grupo.
Gosto de pensar que na minha cabeça há um cortejo; há gente sempre em movimento, sempre em busca daquilo que seus corações pedem. Pensando em Milton Nascimento (sempre ele!) há reis e rainhas do maracatu!
Até breve,
Lívia
Reis e Rainhas do Maracatu
(Milton Nascimento)
Dentro das alas, nações em festa
Reis e rainhas cantar
Ninguém se cala louvando as glórias
Que a história contou
Marinheiros, capitães, negros sobas
Rei do congo, a rainha e seu povo
As mucamas e os escravos no canavial
Amadês senhor de engenho e sinhá
Dentro das alas, nações em festa
Reis e rainhas cantar
Ninguém se cala louvando as glórias
Que a história contou
Traz aqui maracatu, nossa escola
Do Recife nós trazemos com alma
A nação maracatu, nosso tema geral
Vem do negro esta festa de reis
Traz aqui maracatu, nossa escola
Do Recife nós trazemos com alma
A nação maracatu, nosso tema geral
Vem do negro esta festa de reis
Dentro das alas, nações em festa
Reis e rainhas cantar
Ninguém se cala louvando as glórias
Que a história contou
Dentro das alas, nações em festa
Reis e rainhas cantar
Ninguém se cala louvando as glórias
Que a história contou



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