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Newsletter - 03/04/26

Objects in the mirror are closer than they appear.


Trilha sonora para essa edição: What It's Like to be a Bat, Finn Streuper


I


A distância até o mar é medida mais com o coração do que com a razão. Há muitos anos, tive um professor de fotografia que dizia que as fotos que tiramos da lua sempre nos decepcionam porque mostram a realidade, que é diferente do que a gente vê quando olha para ela: linda, enorme, hipnotizante. Esses dias me dei conta de que quando olho para o mar de longe, o efeito é o mesmo, a imensidão toma conta de todos os meus sentidos e, por isso, me parece muito mais perto do que realmente está. O outro lado do espelho.


Objects in the mirror are closer than they appear.


II


Estou de férias e isso permite uma percepção do tempo dilatada. De algum modo, é como se o fazer acontecesse numa outra dimensão, mais próxima do desejo. Não ter hora marcada para nada, me faz ver tudo ao meu redor de forma diferente também, como se o olhar pudesse demorar mais sobre cada coisa, ainda que o corpo pareça estranhar. Dormir em camas diferentes, usar outros banheiros, comer o que não é o costume. Penso que é importante tentar fazer tudo isso como se fosse a primeira vez, mesmo que seja tão frequente na minha vida. 


Acontece que é preciso mais tempo para entrar nesse novo ritmo.


O ritmo das ondas do mar que escuto de longe e penso que estão tão perto.



Eu do outro lado do espelho, criando a ilusão de que aquilo que me fascina está mais perto do que realmente está.


III


A noite passada, tive dificuldade de dormir, é lua cheia. Essa carta, que eu deixei para a última hora (perdão, culpa das férias), começou a se desenhar na minha cabeça sonolenta, enquanto lá fora caia uma chuva forte. Não era possível ver a lua cheia, para onde um foguete se dirigia. No meu torpor, pensei que escreveria um poema, como os que ando escrevendo em um caderninho que raramente sai da minha bolsa. Não sabia ainda que, como sempre, esses textos escritos apenas na minha cabeça acabam evaporando com o primeiro raio de sol.


Como a chuva que não cheguei a ver.


Na capa do caderninho, tem uma obra em que dois dedos se enrolam em um mesmo fio, é uma foto da Liliana Porter. Dela, que desloca e altera a proporção das coisas. Seus bibelôs, na tela, vivos e muito mais próximos do que realmente estão. Meus textos curtos, quase bobos, tentando dar conta de coisas ao redor que me escapam irremediavelmente. Como dois dedos que nunca se tocam, mesmo estando numa mesma mão.


Seguir o desejo pode ser muito perigoso, porque seus objetos estão muito mais perto do que parece.


IV


Ontem de noite, meu companheiro foi dançar no escuro, em Montreal. Nunca dancei no escuro, mas fiquei pensando que deve ser uma delícia, a liberdade de se mexer como se ninguém estivesse olhando, mesmo cercada por uma multidão. É um pouco como escrever, colocar para fora o que há de mais íntimo, sem ver a reação de quem lê. Dá medo, podemos sempre esbarrar em alguém, mas, ah, como é libertador. E necessário. 


Será mesmo preciso calcular a distância?


V


Na casa de Jorge Amado e Zélia Gattai, no Rio Vermelho, tem um vídeo da Mãe Senhora falando das forças da natureza, representadas pelos Orixás. Uma amiga posta que queria sonhar que era vento, ou folha. A ialorixá também diz que a fé já existe em nós e que a busca por uma religião vem do desejo de dar forma a essa fé. Ou assim eu escutei. Sinto que escrever também é isso, um jeito de dar carne para essas frases que aparecem em noites insones, ou diante da beleza que me tira o ar. No texto, podemos ser um morcego, a tempestade, ou a luz. Tudo está mais perto do que parece, quando a gente se permite olhar. 


Mesmo no escuro.


É que a distância é também ilusão.



VI


Nesse mesmo vídeo, Mãe Senhora afirma que todos nós carregamos uma partícula de nossos antepassados, o que, se formos longe o suficiente, nos faz todos ligados. Algo como a ideia do Tariki, o outro poder, no Budismo da Terra Pura, vindo do Japão.


Me repito, a distância é também ilusão. The objects are closer than they appear, in Bahia, or in Japan.


VI 


Passei cinco dias na casa de praia de uma tia, com minha mãe. Muitas vezes, me calei e só observei as histórias da família, tantas vezes já escutadas, sendo repetidas, com diferenças mínimas, mas grandes o suficiente para me mostrar que, sim, tudo é ficção. Mais ou menos perto. Mais ou menos belo. Como uma lagarta arrastando o que me parecia uma folha, mas era sua crisálida nascendo.


Nesse instante, me cai uma gota d’água no vestido. Ela funciona como uma lupa, ampliando a trama do tecido. Eu sorrio.


E agradeço o ensinamento.


Até breve!

Anna



📚Estou lendo Nothing holds back the night, da Delphine de Vigan. Depois de escrever esse meu texto e de ler o dela, me dou conta de como somos todos muito mais parecidos do que imaginamos. Ela, na França, eu, no Brasil. Closer than we appear in the mirror.

 
 
 

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