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Poesias
Josué Tomasini

O fim da infância
Cagol! Cagol!
Vévé! Vévé!
Coendo! Coendo!
A tarde bonita
A Combi da escola
E a poeira levantando no campinho
A vara escondida no armário
O barulho da cinta do pai
O abraço acolhedor da mãe
As galinhas da vó
E o mercadinho da esquina
A bruxa do apartamento térreo
A amada do bloco lá debaixo
E o beijo rejeitado, no bloco lá de cima
A bola de meia
O pulo no balanço
O voo no gira-gira
O bebedor da igreja
A farofa de banana da tia
A fresta da persiana
O ônibus dobrando a esquina
O barulho da chave
O olho da fechadura
As bonecas da irmã à meia-noite
Arnoldo, o tigre
O tombo da cama
O beijo roubado nos pés de Iara
– tão lindos que eram.
“Que estás a fazer?”
– pergunta a recém acordada
O fim da infância.
Carta aos Antonianos
“I don’t want to be the poet of my poet”
Antonin Artaud (Revolt Against Poetry, 1925)
Poeta, cada vez interesso-me menos
pelo que você é e só desejo saber
que ainda podes criar e por quanto
tempo mais – dadas as circunstâncias
e os acidentes todos da vida que
se não sua, certamente de mais ninguém.
Mas o Poeta – desejo reminiscente de presença e forma
opressão como personalidade, inconsciente presente e autoritário
esse não me interessa.
Não se interessaram também aqueles que ao meu lado
brincam com as coisas nomeadas e interrogam
os acidentes semânticos do antes
da palavra anunciada, do ‘eu’ do animal,
que acredita falar por palavras leis
as quais submetido, não acredita poder escapar.
Não me interesso nesta carne que pensa
mesmo que sobre mim se apoiem (sobem agora em meus ombros)
e gritem (gritam sobre os ombros e com minha voz)
seus sofrimentos
seus conceitos
seu terror!
– sonâmbulos do viver e do estar desacordado da vida!
Não obstante o peso do julgo sobre minhas costas
aí lhe deixo e de canto de olho vejo,
e na curva do ouvido, ouço
se rebelam, gritam, gritam a mim e a todos
e do tanto que se agitam, vejo as chagas de toda a gente
dessa espécie apressada e inconsciente
desenvolta, articulada em suas próprias leis e cada vez mais
:automatizada
inatenta
cacofônica
politizada
– mas é preciso respirar!
Já não te aguento mais e de qualquer forma
devo prosseguir também
e uma coisa não precisa vir depois da outra
e um eu não é mais eu que outro
e nada depende
e de outro modo não há nada
e mesmo que se diga no futuro
e mesmo que um ignore e outro olhe
e que um goze e outro escorre
e mesmo que este vive e o outro morra
tudo que há e toda sorte de eus
toda sorte de ombros
toda sorte de cavalos
toda vã encarnação da palavra
toda covardice e ilusão
todo libido astral
e todo coração ao poema entregue
todo e qualquer poeta,
inclusive você
é obra do meu acaso.