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Poesia da pesca

Amália S.

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O galo canta fraco sobre a cerca baixa que há muito ficou para trás. Hoje, são os braços musculosos que tecem a manhã a cada remada. A areia branca que ainda se gruda aos pés brilha como as estrelas que mal iluminam a tez. Só o barulho sincopado é capaz de conter o choro de cada dia.

Quando as ondas cessam, o homem para. Iça a vela e reza uma oração aprendida, cujo sentido nunca lhe coube entender. É ela que atrai os peixes, dizia o avô que ouvira a mesma frase de seu avô. A sina herdada desde um sem-fim de tempo de levar a vida numa estrada revolta. Um medo renovado a cada vez que o peixe grande cujo avô acompanhava seu avô passa ao largo do barco.

É hora de deitar-se no fundo da embarcação estreita e esperar. Meditar sem nem mesmo saber que existe um nome para aquilo que o leva para dentro da própria respiração e faz os nervos abrandarem. Forma atávica de saber quando lançar a linha ou puxar a rede.

O homem não imagina, mas é bonito ver seus músculos ritmados na dança da labuta de todo dia, um poema em movimento. Tão belo quanto a visão dos seres coloridos e cintilantes que ele pesca para dar de comer às quatro pequenas bocas que o esperam atrás da cerca onde o galo ainda insiste em cantar.

A Iara também canta nas pedras ao longe. Hoje e todos os dias os braços fortes tentam remar ao seu encontro. Mas o rugido das ondas, qual um coro divino, sempre salva o homem quando seus ouvidos treinados perdem um compasso do canto de desencanto. O mesmo barulho sincopado que evita o fim da vontade de chorar a cada dia. Sua canção de alma.

Então o homem reza e já não se importa se as palavras que saem musicadas de sua grande boca têm algum sentido. Suas palavras viajando no vento como melodias perdidas, e ele sabe que são essas palavras que tecem sua sorte. São elas que o guiam de volta para os quatro pequenos sorrisos que o abençoam a cada fim de dia.

Edição 3

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