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Joséphine Bacon

Joséphine Bacon, Aînée em residence na Université du Québec à Montréal (UQAM), é poeta, realizadora, documentarista, letrista, tradutora, contadora de histórias e professora de innu-aimun.


Innue originária de Pessamit, no Québec, Canadá, é uma autora fundamental da região, de reconhecimento internacional, e uma grande embaixadora da cultura das Primeiras Nações, tanto no próprio Québec, quanto no exterior. Muito engajada na cena literária e artística indígena, inspira as novas gerações a se orgulharem de suas origens e  a defenderem sua língua e sua cultura.


Enquanto tradutora-intérprete e professora de innu-aimun (a língua innu) há mais de 40 anos, Joséphine Bacon dedicou sua vida à escuta e à transmissão do saber dos anciãos. Ela escreve percorrendo os quilômetros de sua memória, onde estão registrados os relatos dos ancestrais para os quais servia de intérprete. Ao enriquecer a literatura com obras escritas em innu e traduzidas por ela mesma para o francês, ela se inscreve no cenário poético canadense, ao mesmo tempo em que contribui para a preservação da sua língua nativa.

<p class="font_8">Joséphine Bacon, <em>Aînée em residence </em>na Université du Québec à Montréal (UQAM), é poeta, realizadora, documentarista, letrista, tradutora, contadora de histórias e professora de innu-aimun.</p>
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<p class="font_8">Innue originária de Pessamit, no Québec, Canadá, é uma autora fundamental da região, de reconhecimento internacional, e uma grande embaixadora da cultura das Primeiras Nações, tanto no próprio Québec, quanto no exterior. Muito engajada na cena literária e artística indígena, inspira as novas gerações a se orgulharem de suas origens e &nbsp;a defenderem sua língua e sua cultura.</p>
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<p class="font_8">Enquanto tradutora-intérprete e professora de innu-aimun (a língua innu) há mais de 40 anos, Joséphine Bacon dedicou sua vida à escuta e à transmissão do saber dos anciãos. Ela escreve percorrendo os quilômetros de sua memória, onde estão registrados os relatos dos ancestrais para os quais servia de intérprete. Ao enriquecer a literatura com obras escritas em innu e traduzidas por ela mesma para o francês, ela se inscreve no cenário poético canadense, ao mesmo tempo em que contribui para a preservação da sua língua nativa.</p>
ENTREVISTA

Lívia: Quando eu li As vértebras de Joséphine, eu tive a sensação que não estava lendo, e sim te escutando me contar as histórias.


Joséphine: Ah, que bom que você entendeu assim.


Lívia: Por quê?


Joséphine: Por quê? Porque o livro são narrativas. Sabe, eu parti da minha tradição oral. Eu contei. São histórias que eu conto. A Laure Morali fazia anotações… alguns relatos foram gravados, mas eu achava que ela respondia melhor às minhas histórias quando eu contava oralmente do que quando eram gravadas.

Então é oralidade, oralidade. É como… sabe, esse livro que eu faço é como… primeiro, não há perguntas. Tiramos todas as perguntas. A pessoa que pega o livro precisa lê-lo como se eu estivesse contando aquilo diretamente para ela.

Para cada leitor, cada leitora, é para essa pessoa que eu estou contando.


Lívia: Também tenho duas perguntas… não quero esquecê-las. Talvez estejam ligadas. Me marcou muito a frase “nasci de pé”. Eu adoro isso.


Joséphine: Ah sim, “nasci de pé”, isso é normal. É normal. Eu escrevi um poema que diz:
“Eu não tenho o andar felino.
Tenho as costas largas das mulheres ancestrais,
as pernas arqueadas daquelas que carregavam…
das que davam à luz caminhando.”

Porque no tempo do nomadismo, muitas mulheres caminhavam grávidas. E quando chegava a hora do parto, montavam rapidamente uma tenda improvisada, um tipi, e ali elas davam à luz. O bebê nascia, ficava um pouco ali, e no dia seguinte elas já retomavam a caminhada.

Por isso: “daquelas que dão à luz caminhando”. As pernas arqueadas. Porque quando escrevi esse livro minhas pernas estavam muito arqueadas — eu ainda não tinha joelhos de metal.

Agora corrigiram, mas eu ainda manco. Minha maneira de andar não mudou.

Nascer de pé, quer dizer que as mulheres davam à luz e colocavam o bebê num uiutimaushun. Bem enrolado, bem aquecido. E as mulheres o carregavam nas costas. E o bebê ficava em pé. É como já caminhar ao vir ao mundo. Você nasce de pé, já diante do horizonte.

Lívia: Porque você voltou às comunidades? Para conversar com os anciãos?


Joséphine: Eu voltei às comunidades. Porque o nomadismo tinha acabado. Havíamos nos tornado sedentários. Os anciãos estavam nas comunidades. Então eu fui gravá-los. E eles falavam do tempo em que eram nômades do Nutshimit.(o nutshimit é o território de caça, a terra mãe, o território imagético, ancestral, não é um lugar somente físico).

Eles contavam tão bem… eu escutava e tinha a impressão de caminhar com eles enquanto narravam.

E é por isso que, em As vértebras de Joséphine, quando falo dos anciãos, quero que as pessoas me leiam da mesma forma que eu os escutava me contando histórias: eu estava com eles no Nutshimit.

Quero que quem leia As vértebras imagine que estou contando diretamente para essa pessoa.

acho que não existem muitos caminhos a seguir. Para simplesmente ser. Ser dentro do verbo que nós somos.

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Lívia: Então, quando sinto que é você me contando, isso quer dizer também que estou ouvindo os anciãos?


Joséphine: Sim. Sobretudo em Bâtons à message, os primeiros poemas foram inspirados nos relatos dos anciãos. Eu jamais teria escrito esses poemas se eles não tivessem me contado essas histórias.

Sem a tradição oral, eu ignoraria completamente esse modo de vida.


Lívia: Várias coisas me chamaram atenção nos livros, mas isso especialmente: a teoria do riso pré-colombino, de Rémi Savard. Porque você sorri o tempo todo. E eu me perguntava se antes da colonização havia uma outra maneira de viver o humor.


Joséphine: O riso, tanto para os Innu quanto para todos os povos indígenas, é um modo de sobrevivência. Enquanto você ri, você sobrevive. Sempre há algo que, mesmo na miséria, na fome, vai te fazer rir. Esse riso que os espíritos te dão… significa que você está viva.


Lívia: E falando dos espíritos… você fala muito do Papagassik. E também disse que o território é a terra-mãe.

Joséphine: Sim, hoje traduzimos como “terra-mãe”. Mas Nutshimit é como um parente. Cuidava de nós como uma mãe. Mas em innu não existe “ela” para Nutshimit. Não se pode colocá-lo no possessivo. Então, quando falo em francês, às vezes digo “o”, “a”… mas prefiro simplesmente dizer Nutshimit. Porque se Nutshimit não existisse, nós não existiríamos. Talvez seja uma entidade. É imenso. Enorme. Você usa um rio para chegar ao seu território de caça, mas esse território está dentro do Nutshimit. Quando os homens iam caçar caribus para sustentar o grupo, as mulheres permaneciam cuidando de tudo. No fim, eram elas as chefes do clã. Porque precisavam garantir o bom funcionamento da vida comunitária. Hoje Nuthsimit virou Nitassinan. Mas Nitassinan é Nutshimit tornado possessivo. Como os brancos precisavam que algo “pertencesse” a alguém para reconhecer reivindicações territoriais, foi preciso criar um possessivo. Mas transformar Nutshimit diretamente em possessivo teria sido uma falta de respeito. Então, por respeito, passou-se a dizer Nitassinan.

Lívia: E sobre os ossos, a medula, as vértebras…


Joséphine: Penso no caribu (rena). Tudo nele é mágico. Ele te cura, te veste, te alimenta e conduz tua alma até os sonhos e os espíritos. Por isso, no tempo do nomadismo, nunca se deixavam ossos espalhados. Eles eram pendurados nas árvores. Era preciso que o mestre dos animais percebesse o respeito que se tinha por eles. Quando esmagavam os ossos para fazer gordura, havia silêncio ao redor. As crianças observavam em respeito. Porque os ossos são o esqueleto do animal — aquilo que sustentava sua pele e sua carne. Ao transformar os ossos em gordura, continuava-se vivendo o espírito do animal. E isso favorecia os sonhos.


Lívia: Então quando penso nas suas vértebras e também no verso “Eu me embelezei para que percebessem a medula dos meus ossos…”


Joséphine: “…sobrevivente de uma história que não se conta.”


Lívia: Isso é muito bonito.

Joséphine: As vértebras são aquilo que sustenta. Aquilo que te mantém ereto. É isso que faz de você um humano, um Innu. Assim como o caribu tem suas patas dianteiras e traseiras, eu tenho meus braços e minhas pernas. E ele também tem uma coluna vertebral. Quando se vive verdadeiramente como humano, não é preciso “pensar” em respeitar a terra. O respeito já está dentro de você. Hoje precisamos colocar palavras nisso porque fomos muito longe na perda dessa relação. Mas deveríamos nascer já com o respeito.


Lívia: Nossa revista é literária. O que você diria para os nossos leitores?


Joséphine: Diga a eles que é assim que eu respondo à literatura: contando histórias.


Lívia: Você fala muito da língua innu como movimento, do animado e inanimado…

Joséphine: Isso é a língua. É a alma da língua. O innu-aimun é uma língua de verbos. Porque em innu um verbo contém o sujeito, a ação, a qualificação e às vezes o complemento. Se você conhece bem os verbos animados e inanimados, transitivos e intransitivos, então só resta falar.


Lívia: E para terminar… que conselho você daria às pessoas que estão começando na literatura, procurando sua própria voz?


Joséphine: Meu Deus… acho que não existem muitos caminhos a seguir. Para simplesmente ser. Ser dentro do verbo que nós somos.

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