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ENTREVISTA

Laure Moreli

Laure Morali, poeta e romancista nascida na França em 1972, reside no Québec. De sua infância na Bretanha, extrai uma linguagem moldada pelo movimento do mar, aberta ao mundo vivo. A vida nômade, a transmissão de saberes antigos e a transformação dos seres sob a ação dos elementos tecem motivos que atravessam coletâneas, narrativas e romances. Sua escrita vibrante atenua as fronteiras entre as dimensões mineral, vegetal e animal.


Em 2026, Laure Morali recebe o prêmio especial Ganzo, l’Orénoque, pelo conjunto de sua obra, saudada nestes termos:


“Entre as histórias e sua geografia, entre si e o outro, Laure Morali        constrói pontes e estende a mão. Ela habita nossa língua por meio de um poema que se recusa a esperar a hora de viver melhor sobre a terra, sob um céu que nunca está distante.”


Últimos títulos publicados: Personne seulement (Mémoire d’encrier, 2023), Les vertèbres de Joséphine, com Joséphine Bacon (Mémoire d’encrier, 2026), Le ciel à côté de l’oreille (La rumeur libre, 2026), Les géantes (Dépaysage, 2026).


Créditos da foto: Marjorie Guindon

S: Sua obra, da Bretanha a Montreal e à Côte-Nord, é marcada pelo diálogo. Em seu trabalho, como em Personne seulement, como você o encontra o equilíbrio entre sua própria voz interior e essa abertura constante ao outro?


Laure: O vaivém entre criações pessoais e criações coletivas me alimenta e me permite não me fechar na solidão da escrita. Acho que escrevi cerca de dez livros sozinha e tantos outros com outras pessoas (diálogos, direção de antologias, trabalho com ilustradores). Atravessar as fronteiras entre as línguas e as culturas me permite acreditar em um mundo onde o diálogo é possível.

S: Segundo você, a poesia “vive no país da infância” e é preciso devolver à linguagem sua dimensão sagrada. Isso aparece tanto em seus projetos coletivos quanto em seus documentários, como L’ours et moi. Que impacto essa busca pela “língua da origem” tem sobre tua escrita?


Laure: A criança toma as palavras ao pé da letra. Ela as pronuncia como se tocasse as coisas que nomeia. As palavras captam a energia dos lugares, a força dos elementos, a beleza dos seres. É nesse sentido que meu trabalho de escrita, assim como meus encontros com as pessoas que filmei, convergem para essa fonte sagrada. Scott Momaday, em L’Ours et moi, diz que o que torna os lugares sagrados é a linguagem. São as histórias que transformam uma paisagem em lugar sagrado. Podemos fazer a mesma coisa ao escrever um poema e dizê-lo em voz alta…

S: Você pode me dar detalhes sobre seu processo de criação? Você tem uma rotina de escrita?


Laure: Gosto de escrever em movimento. As frases então me atravessam com facilidade.


S: As vértebras de Joséphine traz dois nomes na capa. Como se construiu o equilíbrio entre a sua prosa e os poemas de Joséphine? Foi um processo orgânico ou uma estrutura imaginada desde o início?


Laure: Essa estrutura se impôs ao longo da escrita. Enquanto eu escrevia o relato, a partir das palavras de Joséphine que eu havia gravado, poemas dela retornavam à minha memória. Me pareceu natural criar esses vínculos que permitem ao leitor redescobrir a poesia de Joséphine sob o ângulo das histórias de vida que ela conta ou dos mitos fundadores innus que transmite. O ritmo entre prosa e poemas molda o ruído do silêncio.

Atravessar as fronteiras entre as línguas e as culturas me permite acreditar em um mundo onde o diálogo é possível.

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S: Joséphine fala frequentemente do nutshimit e da língua innu-aimun como algo em movimento. Como escritora de origem bretã vivendo no Quebec, de que forma essa imersão na cosmologia innu influenciou a sua própria percepção da língua francesa?


Laure: Cresci numa península cercada pelo mar e pelo movimento das marés, na Bretanha. A mudança perpétua faz parte da minha música interior. Quando encontrei a língua innu e permaneci no nutshimit durante meus vinte anos, senti uma ressonância. Escrever poesia é se abrir à liberdade de uma língua em movimento. Habitar a poesia é fazer do movimento a sua casa.

S: A cumplicidade de vocês remonta a Aimititau! Parlons-nous! em 2008. Como essa amizade de longa data evoluiu para permitir hoje a criação de uma obra tão íntima quanto um relato de formação?


Laure: Nós nos conhecemos há cerca de vinte anos e vivemos muitas coisas juntas, algumas belas, outras menos; algumas felizes, outras tristes. Aceitamos uma à outra com nossas qualidades e, sobretudo, com nossos defeitos, que os anos nos ensinam a conhecer. Aprendemos a ler os silêncios uma da outra, e foram esses silêncios que tive vontade de fazer ouvir no livro, para abrir janelas íntimas sem nomear aquilo que não deseja ser nomeado.

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