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Nossos corpos, eternos rascunhos

Isadora Akemi Bugan

É uma segunda-feira de dezembro;

energia de princípio e de fim.

Me entregas uma carta-poema

Sinto o gosto do seu texto

em minha língua, em minha alma.

Corto o cabelo e vejo nascer

uma nova versão de mim

barro e obra, Adão e Lilith.


Eva?


Dela sinto só a costela e o pecado,

e um vento gélido na nuca agora  exposta.

Esta nova eu é inundada de desejos antigos,

de uma inesperada vontade de te escrever e  querer.

E, querendo a tudo, quereria a ti também,

por teus gestos e metáforas, ou

se não por quem tu és, quem sabe

se hoje eu cortasse os cabelos.


Quem sabe se a vida fizesse

uma dessas curvas

que só ela sabe dar

e essa nova eu te encontrasse distorcida  no reflexo.

Eu, tão autora, talvez aprendesse enfim

a ser musa, e, sendo musa,

talvez aprendesse a tornar-me mulher.


Eu responderia sua carta e

Aí então eu poderia aceitar tua oferta de vinho

e escutar tuas histórias, as que eu não vivi,

e desejar ainda que pudesse beijar

tua boca como se fosse outra —

Mais pura, mais límpida, estéril,

sem que eu trouxesse comigo o peso

dos anos e das dores: minhas, suas, alheias.


Quiçá eu me perdesse a desbravar teu corpo

e novamente me faria colônia,

bradando seu nome e não independência.

Ou talvez seu novo eu me fosse tão novo

que me sentiria virgem e novamente

nos fizéssemos de poesia,

nossos corpos eternos rascunhos,

a careta de gozo, o gemido contido.

Ou mesmo um outro som — que ainda eu não conheci.


Me entrego e encontro, em ti e em teu verso,

nossos vícios de linguagem, atos tortos de cuidado.

Vivo algo quase inquietante nesses momentos:

ternura, castidade, um  excesso dionísiaco.

Perco-me nesses instantes de prazer e de carinho,

sabor de sal, de mar e de todas as formas puras,

quase platônicas, que encontro em você.


Mergulho em suas pernas e eu, sereia sem ar,

poderia perder-me ao desbravar tuas curvas, seu léxico,

afogar-me no teu plexo solar.

Deixo a língua traçar relevos, desenhar mapas, delinear formas.

Sou eu, por fim, bandeirante, marinheira,

na extensão de teu corpo à fincar bandeiras,

gozando enfim a terra à vista.


Essa nova eu acordaria antes de ti e tomaria café,

envolta apenas nos teus lençóis brancos,

velando teu sono e tracejando

os caudalosos contornos que lhe impõe a luz do sol.

Você afagaria minhas madeixas soltas

e eu repararia nas tuas rugas e cicatrizes,

refazendo a cartografia de tua pele e teu ser.

No peito, eu estancaria  um brado retumbante,

o pulso rufante, um grito de guerra.

Deitaria no teu colo e exploraria, aos poucos,

essa terra virgem, esse solo fértil.

Tocaria-a, então, de forma impossivelmente gentil,

uma gentileza quase cruel.


Talvez novamente você me abriria a casa,

e eu mergulharia em seus braços,

e respiraria fundo desse mesmo ar

de rosa vermelha, incenso e cravo.

O riso preencheria a sala e ecoaria,

e eu me esqueceria dos vizinhos e amigos.

O teu lembrete sobre o que é ter sangue quente

ressoaria em minhas artérias e eu faria tanto

quanto pudesse em um instante não linear.


É março, agora, quase abril,

e as quaresmeiras se abrem em flor,

insensíveis à nós.

Meus cabelos, agora tão longos;

teu desejo já incêndio contido.

Não existe mais seu marido, nem culpa,

e tudo em mim transparece apenas medo.

Penso em te enviar finalmente essa resposta,

em arar o solo, em buscar-te no trabalho.

Em entrevistar a autora e evitar os finais  trágicos,

E apenas de reencontros escrevemos nossa paixão.

Fazer de nós, por fim, mais poesia que mulher.

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