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Carta da dor fantasma

Aline Gonçalves

 Prezada (Eterna? Póstuma?), Edificação n. 5


 Penso em você. Você mesma, pronome informal, minha íntima. Penso mais do que gostaria. Diria até que todo dia. Cada passo, uma letra. Um degrau. Uma lágrima? Meus pés trançam na escada. Uma queda? Minha língua embola as palavras. Sei que escuta o trec-trec da máquina de escrever. Sei que ouviu as madrugadas, os monstros, os fantasmas. Uma queda! Era tão grande e imensa. Tão protetora. Houve risadas e festas. Quando ficou tão indefesa? Foi intensa. “Querida, Casa”, “Póstuma, Casa” ... Embaralho os pronomes de tratamento como troco as pernas. Viu-me cambaleante. Viu-me desperta. Tão elétrica. Tão apática. Tão menina. Tão velha. Não; não é “saudosa”, mas é eterna. Decrépita, menina. Deserta, Casa.

 Sim, ainda tropeço pelo passeio e cruzo os dedos. Ainda procuro por dentes-de-leão entre as rachaduras do meio-fio. Eu não quero ver o carro funerário passar diante da janela, tampouco anseio pela borboleta amarela. Minhas superstições. Suas frestas. A voz dela. Minha avó cantarolando entre as panelas. Meu avô arrastando as chinelas. O barulho do pacote de pão. A garota. O quarto. As letras. O sangue derramado ainda dentro dos corpos e veias. Os cheiros. Ah! Bolinho de arroz e brigadeiro. Houve festas. Houve silêncio. Não, não é saudade, nem desespero. Não é lástima, nem zelo. Casa, você é um membro. Amputado. Não está mais lá. Mas, está ainda. Não existe, mas está doendo.

 Não. Não escrevo para meus mortos. Nem para meus vivos. Escrevo para os gritos; os que expeli e os que ocultei. A mancha atrás da escrivaninha. A gordura atrás do fogão donde outrora fora cozinha. Os resíduos que excretei. A sujeira que limpei e tudo o que não limpei. E não sara. Já quis demolir. Já quis vender. Já quis lavar. E quis desviver. Já quis lembrar. Já quis esquecer. (E não sara). Enquanto isso, você assiste e resiste. Tanta gente que não existe mais. Tanta coisa que não vou ouvir. E é estranho que o que faz desistir é também o que faz continuar. Não, não quero olvidar. Mas, também não quero sentir. E há festas, mas não há música. Azar o seu. De quando em quando, penso que é a minha vingança por você ter ficado. Em outros momentos, penso que é o meu castigo, por ter ido. Às vezes, somos feitos do que nos destruiu.

 Então, apenas assento-me aqui na esquina, encolhida nas sombras, espionando... ora como uma espectadora, ora feito uma idiota. Ou...


 Com dor fantasma,


 A esquecida

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