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A última carta para o meu primeiro amor

Martina Kohatsu

Doação: botas Dr. Martens pretas, 8.5W, veganas.  

Estado: usadas. Obs.: a sola está solta. Precisa de reparação.  

Brinde: memórias de um primeiro amor


Martina


22 de março de 2026


 Querido Ryu,


 Faz muito tempo que não nos falamos. Te enviei cartões postais para endereços  incompletos, mensagens crípticas com meias declarações e planejei roteiros de viagens  não realizadas. Surpreendentemente, vivemos mais anos desde que nos separamos do  que estivemos juntos. Nossos traços, e talvez até nossas vozes, já mudaram desde que  nos conhecemos na adolescência. Vivemos outras vidas, e de certa forma era isso que eu buscava quando nos despedimos: viver uma outra vida. Mas não imaginei que carregaria a  nossa comigo. Agora, te escrevo sem esperança de encontrar sua leitura, sem  expectativas de alcançar em você o mesmo lugar que dói em mim. Escrevo pela urgência de entender o que restou do lado de cá. Não sei o que você fez com sua parte, mas essa é  a minha.


 Quando voltei para Montreal no início do ano, estava despreparada para o frio de  fevereiro. Me desesperei quando as botas Dr. Martens que você me deu rasgaram pela  segunda vez. Levei-as ao sapateiro que, ao vê-las, deu um sorriso de canto e disse: “Moça,  essa bota já deu. O fabricante não vende a sola separada, e essa aqui já era. Você precisa  comprar outra.”Mas eu não quero comprar outra, pensei. Essas botas foram um presente,  um gesto de amor, um ato de carinho para quem se ama e vive a quilômetros de distância.  Em um dado momento, fiz um acordo inconsciente de sempre usar aquelas botas, como  marca própria, com um toque da nossa conexão.


 “Eu não tenho dinheiro para comprar outra dessas. Elas são caras,” respondi. O  sapateiro deu de ombros, quase com pena, e saí cabisbaixa de sua loja. Era ridículo me  apegar àquelas botas, que enchiam meu pé de neve toda vez que eu pisava no chão. Os cadarços já não eram originais e estavam duros de tanta gastura. Mas então por que sentia  meu corpo se alarmar com a ideia de jogá-las fora? Eu não queria dizer adeus, tinha medo  de nunca mais vê-las por perto como auxílio e amuleto.


 Usei essas botas quase todos os dias por oito anos. Na neve, em trilhas  lamacentas, em chuvas torrenciais e até na beira da praia. Simbolicamente, você estava  comigo em todos esses lugares que fui sozinha. Em festas estranhas, às 4 da manhã,  sentada num canto qualquer, tinha um momento de lucidez ao pensar na improbabilidade  da nossa história, tão pura e tão distante do que vivia naquele momento. Usei as botas na  minha formatura da faculdade, nos meus aniversários de 21, 22, 23, 24 e provavelmente 25  anos, na defesa do mestrado, em incontáveis dias de trabalho, mil e um rolês e outras tantas roadtrips. Nem sempre pensava em você quando as usava, mas inconscientemente mantínhamos um vínculo indireto por meio delas. Ao andar com elas para cima e pra  baixo, elas faziam parte de mim, assim como você. Descomplicado. Uma simbiose que  não exigia nem questionava nada.


 Jogá-las fora era o último ato da longa e dolorosa série de me desfazer de você e de  tudo o que acumulei e construí contigo; materialmente, psiquicamente e  emocionalmente. A camiseta escrita “te amo” em várias línguas foi a mais fácil e ao  mesmo tempo a mais dolorosa de descartar. Fácil porque seu valor sentimental era claro – o primeiro presente de Natal de um garoto perdendo a inocência, dolorosa por ser o  primeiro corte psíquico sentido pelo gesto físico. Um ato performático. Anos depois, numa aula de teatro a céu aberto, nos pediram para imaginar um objeto que não víamos há muito  tempo, como um brinquedo de infância, um porta-joias da avó... Pensei nessa camiseta,  branca, um pouco esgarçada na gola, com “ik hou van jou”, “je t’aime”, “i love you”, “ich  liebe dich” escrito em letras coloridas. Pegava-a do chão ao mesmo tempo que tocava  nossa história de novo, e era como se eu encontrasse algo escondido em mim mesma depois de muito tempo.


 Assim que peguei e vesti a camiseta imaginária que não via há anos, senti um  burburinho interno se transformar em lágrimas que escorriam apressadas pelas minhas bochechas. Em poucos segundos eu soluçava, sem entender por que esse sentimento  ainda existia em mim, “por que não podíamos mais estar juntos?” Corri para a ponta de um  pico que dava para o mirante do Vale das Grutas, olhei para os morros que se estendiam  pelos meus olhos e mais pareciam uma imensidão de mares verdes e chorei até não  enxergar mais a paisagem, as emoções suprimidas, sufocadas e enlatadas há anos, agora misturadas com a vista das colinas e a camiseta invisível que eu segurava em minhas  mãos. Ninguém me viu chorar naquele dia, pelo menos ninguém que eu conhecia. Doía  não poder confessar esse amor do passado, batido. Doía sentir sem poder te dizer,  vulnerável diante daqueles sentimentos profundos que me perseguiam como uma  sombra, e que agora tinha de enfrentá-los sozinha. Você, a quem recorria para encarar e  entender o mundo das emoções, estava tão distante e inacessível quanto aquelas colinas,  e o sentimento íntimo de amizade que conheci como amor se transformara em catarse. Mesmo rodeada de gente, nunca me senti tão só.


 Mais tarde, foi a vez do vestido azul marinho que ganhei de você com 15 anos e que  usei até os 25, quando o deixei dobrado no cantinho da minha cápsula-cama em Tóquio.  Dor e alívio me acompanhavam. Estava aliviada por não me sentir mais presa a você, não  mais revestida por nada seu, e a dor de saber que você seguia em frente ecoava em mim, me fazendo sentir mais viva. Naquela viagem, a confusão do fuso horário se transformou  num hábito de tentar entender, no meio daquele lugar estranho cercado por  desconhecidos, quem eu era sem você. Me levantava antes das 5 e escrevia poemas por  horas a fio. Invariavelmente, escrevia sobre amor, sobre estar só, sobre ansiar transcender sem saber ser amada de volta. Buscava em minha memória onde terminava quem era eu e onde começava quem era você. Entendia que a primeira dimensão que nos separou foi convencional, não éramos mais um casal. Depois, foi a dimensão física, à qual estávamos  acostumados, já que a geografia sempre nos fez estrangeiros. Mas como delinear nossa  separação psíquica e emocional? Não sabia dizer quem eu era sem você, sem teus  sonhos, sem teu apoio, já que construímos nossa relação enquanto construíamos a nós  mesmos, naqueles anos delicados e marcantes da adolescência. Sem chegar a nenhum  lugar, pensei


 Eu morri com você ryu

 A pessoa que sou hoje

 é a que construí

 depois de me perder

 em você,

 e de morrer

 com nossa separação


 Anos se passaram, me envolvi com homens e mulheres em busca de sensações  novas, de lugares inabitados, sempre longe de casa. Nunca mais conheci o conforto da  amizade, morada do amor, e vivi exilada


 Amor ingênuo

 Amor inocente

 Comi a maçã,

 Pois o desconhecido é inevitável

 Expulsa do paraíso

 Não sei como voltar

 Àquele estado de união

 do eu,

 só meu

 e teu


 Encho meus dias de tarefas e meu imaginário de objetivos, assim quase não há  espaço para o amor. Vem sendo desse jeito desde que nos despedimos. Mas se curvo  meus desejos e quereres para que se encaixem no minucioso planejamento dos meus  dias, à noite, os sonhos, indomáveis ao nosso tempo, me mostram o que não quero ver. Acordo desnorteada, memórias reprimidas surgem no meu consciente, rompendo a  espessa camada de afetos turbulentos e experiências impetuosas com os quais cubro a  dor de ter amado. Um cheiro, uma canção, ou uma imagem antiga se infiltram por minhas defesas e distrações e me deparo com essa ferida que nunca fechou, casquinha e pus  cobrindo a carne ainda viva, que pulsa e sangra. Em prantos, sei pela dor que toma conta  do meu corpo, é o amor que me atravessa. Ele ainda está aqui, rompido, mas guardado em  mim. Leal (ou possessiva), não deixei ninguém nunca mais tocá-lo. Hoje você é quase um  estranho; a ferida pouco a pouco se metastatiza por todos os meus afetos, infecciona  minhas esperanças e aleija meus começos.


 A cada aniquilação prematura em meus relacionamentos, me perco ao tentar  reencontrar o caminho do amor que me fazia forte e invencível, mas que hoje me isola e  deprime. Por meio de cada objeto de que me desfiz, te disse adeus, e disse centenas de  adeus ao longo dos anos sem nunca realmente limpar minhas feridas, uma cura que se  recusava a te tirar de mim. Quando descobri que não podia mais usar minhas botas  pretas, a minha última conexão ao você do passado, percebi nossa história, guardada na  gaveta dos sentimentos cada vez mais distantes no espaço-tempo, trazer sua última lição,  obrigando-me mais uma vez a enfrentar minha ferida. Voltei do sapateiro, limpei as botas cuidadosamente e coloquei-as numa sacola verde que deixei na parte coberta do prédio,  com um papel branco em cima que dizia “Free boots.” Disse adeus num pequeno rito de  passagem. Dessa vez, não foi anseio nem raiva que me moveram a desapegar, nem o  tempo, que nunca significou muito em relação aos nossos sentimentos. Foi entender que  as botas já tinham cumprido sua missão. Já tinham feito muito por nós, e agora cada um  seguia seu caminho. Você encontrou novas linguagens para amar, e eu escrevo as minhas. Como água benzida, as palavras limpam minha ferida,


 It wasn’t a question of love

 Love had nothing to do with it

 It was about choice

 To be in your life, or to be in mine

 And against all odds

 I chose mine


 Curiosamente, minhas novas botas me fizeram machucados, não se encaixam tão  bem, e sou obrigada a de fato cuidar de feridas para seguir adiante. Passo pomadas e  curativos enquanto vejo as bolhas pouco a pouco cicatrizarem. Hoje, pela primeira vez em  quase um mês não senti dores com as novas botas. Os cortes das primeiras semanas  estão sarando. Os novos pares me deixam um pouco mais alta, têm a cor vinho,  combinam com meu casaco roxo, mas ainda não são parte de mim, nem tão confortáveis  quanto às de antes, pretas, punks e veganas. Apesar disso, seu revestimento brilhante me traz esperança ao me fazer pensar nos lugares onde quero levá-la, e na estranha cheia de  confiança em que me transformo quando as uso. Estes são os primeiros passos do  recomeço.


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Estado: desapego em curso

Brinde: novas linguagens para amar

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