
Mancha
Daniela Bonafé

Mamãe,
Uma mancha, de um vermelho desbotado, apareceu sem aviso. Grande como a palma da mão, estampada na minha bochecha direita, bem no lado que mais gosto do rosto, porque desse lado, você sabe, minha orelha não parece tão grande.
Naquele dia eu acordei como em todas as manhãs com o som do despertador, bebi meu santo copo d’água com o polivitamínico, vesti as pantufas que ganhei do papai no amigo secreto e me levantei cambaleando. Não sei se você também está assim, mas essas últimas noites têm sido bem frias, o que me traz aquela preguiça, e não está fácil acordar, sabendo de tudo o que está por vir.
Eu estava muito estressada com as planilhas que os fornecedores cobravam. A rotina me espremendo contra a parede, sem dó. Achei então que a mancha era uma espécie de efeito colateral, que diminuía minha imunidade. Sim, a terapeuta já tinha me dito que o corpo dá sinais e que eu é que não queria escutá-lo.
De frente ao espelho do banheiro, examinei se não era mais uma das minhas alergias, mas ao tocá-la levemente, o dedo indicador atravessou a bochecha e parou na língua.
Gritei, aterrorizada, como quando a Violeta caiu do balanço, você se lembra?
A mancha era como uma porta para dentro.
Percebi que meu dedo também ficou manchado do mesmo vermelho desbotado e fiquei me perguntando se o dedo - meu Deus - será que meu dedo também poderia ser atravessado?
Até o Tobias ficou espantado. Ele sempre me entende só pelo meu olhar, mas não dessa vez. O bichano se escondeu debaixo da mesinha de cabeceira e acho que eu estava virando um monstro. Sim, mamãe, fiquei bastante atordoada com isso.
Não sei se foi o dia que amanhecera insólito ou se era por conta do fechamento do mês no serviço, só sei que quando toquei com a ponta do indicador, o indicador da outra mão, tive a resposta. Senti um dedo entrar e sair do outro como um pênis fodendo uma vagina e então, o vermelho desbotado se espalhou por ele também.
Desculpe falar disso com você, sei do quanto esse assunto pode te soar incômodo, mas para quem vou contar uma coisa dessas? Eu chorei tanto que além de manchada, fiquei inchada. Eu parecia uma baleia corada e fiquei com um medo enorme de acabar deformada, de um jeito feio, como aqueles seres sobrenaturais dos filmes de ficção.
Tudo sempre esteve sob meu controle, cada etapa foi bem planejada na minha vida, e de repente uma coisa assim, sem pé nem cabeça! Eu precisava de sua ajuda. Te pergunto: se estivesse em meu lugar, o que faria para que o mal não se alastrasse?
Pois te digo que foi bem esquisito, porque a mancha não doía, queimava ou ardia.
É claro que liguei para a secretária do doutor Aloísio, para marcar uma consulta de emergência, mas ela me disse que ele estava viajando a trabalho, num congresso. Liguei também para o meu gerente e disse que não estava bem, avisei que iria ao pronto-socorro.
Mamãe, pensa bem, tudo isso aconteceu justo no dia de entregar tudo o que ele pediu para eu fazer no trabalho, e eu naquele estado de coisas, impotente. Minha cabeça ficou a mil. Eu nunca faltei na empresa, ainda mais em época tão acelerada. Meu chefe sempre soube que poderia contar comigo e bem por isso fui promovida tantas vezes. Eu, supervisora de departamento, com tanta gente sob meus cuidados, não poderia sequer aventar faltar como uma opção, mas não teve jeito.
Desisti do banho por medo de ficar ainda pior e me vesti com bastante demora e atenção, para que meus dedos não esbarrassem em outras partes do corpo. Você nem imagina como vestir as meias pode ser uma atividade demorada e como colocar o sutiã pode se assemelhar à uma prova de destreza naquelas minhas condições.
Eu estava tão bem e de uma hora para outra, doente. E adivinha o que não saía da minha cabeça? Um bando de perguntas! Quem vai entregar as planilhas? Será que foi o creme anti-idade? Mamãe, pelo amor de Deus, eu estava cheia de perguntas e elas estavam tomando conta dos meus pensamentos. Eram intrusivas demais.
Depois me peguei pensando: será a praga que você me rogou quando me pegou me masturbando no quarto, no auge dos meus treze anos? Me lembro como se fosse hoje que, depois dos tapas que você me deu, ainda me disse: você tem o diabo no corpo, menina! Vai ver foi o diabo, mamãe, que morou tanto tempo dentro de mim e que quis sair, corroendo e furando tudo.
Esquisito é que mesmo com essas lembranças amargas, eu ainda sinta sua falta. Seria bom que você estivesse aqui para me levar ao médico, ou que eu pudesse ouvir sua voz calma, dizendo que as coisas iriam se resolver de um jeito ou de outro. Sinto saudade. Meu coração parece uma peneira, de tão esburacado, por você ter partido tão cedo.
Pesquisei também na internet. Pensei que o doutor Google estivesse mais disponível que nosso bom e velho doutor Aloísio. Digitei em caixa alta a palavra MANCHA e todas as outras possíveis formas para descrevê-la, adjetivos dos mais variados, relações infindáveis que beiravam a loucura - como num jogo de associação, mas não encontrei uma informação que esclarecesse a situação.
Sabe, mamãe, o tempo passa e tem coisas que a medicina ainda não sabe. Você sempre me disse que eu era única, um caso particular. Talvez tenha dito isso porque não sabia como responder à nenhuma de minhas necessidades. Ou porque me amava demais. Desculpe, mas é uma grande merda essa história de que você contava de que eu era uma só, sem cópia. Você enfiou na minha cabeça a ilusão ridícula de ser especial, que agora vejo: ora aumentava a minha autoestima e ora me jogava no fundo do poço. Quando entendi que era balela, saí da toada de que as merdas só acontecem comigo.
No fundo penso, agora já mais calma, que deve ser o ódio que cresceu em mim durante as noites nesses últimos anos, enquanto eu dormia. Esse trabalho, devo te confessar, estava me matando. Não aguentava mais! Eu fingia estar realizada, mas essa correria frenética estava acabando com a minha vida.
O problema é que naquele dia, quando peguei a chave do carro para procurar ajuda, meu polegar encostou no indicador. Mandei para o inferno todas as nossas gerações. Xinguei você, mamãe, porque estava desacorçoada da vida. Depois, quando toquei no painel do elevador, esbarrei o indicador no dedo médio e, mais tarde, enquanto dirigia, o mindinho encostou na palma.
A mancha foi se espalhando e eu fiquei me questionando se Deus existia e se existia, porque era tão mau. Se quiser, você pode rezar por mim: foram tantos pecados numa só manhã… eu maldisse tudo o que você me ensinou a respeitar.
Fiquei tão desesperada ao volante, chorando tanto, que nem percebi que minhas mãos tocaram as pálpebras para secá-las. Quando me olhei no espelho retrovisor, fiquei muda de tão perplexa. Desde aquele dia, meu coração está apertado num sentimento difícil de nomear, e as palavras morreram em mim. Te escrevo tentando encontrar as palavras certas para algo tão errado.
Meu corpo não se aquieta de forma alguma e quanto mais fujo do contato, mais sou tomada por ele: pareço sedenta de ficar por completo nessa estranheza. E isso é devastador, mamãe. Não me reconheço mais.
Hoje, antes mesmo de te escrever essa carta, entrei e saí de mim inúmeras vezes, tocando-me e atravessando-me: o dentro, fora e o fora, dentro. Estou do avesso, exposta, metendo as mãos pelos peitos, os pés pelos olhos, minha cabeça afundou dentro da vulva, numa frenética penetração orgásmica. E se te faço passar vergonha te contando tudo em detalhes, sinto muito, mas só à você posso confiar essa loucura.
Desde sexta-feira passada sou de fato outra. Meu corpo é uma mancha completa, absoluta, vermelha, e por isso ontem eu pedi demissão. Era impossível me apresentar nessa situação em que me encontro.
Não precisa mais se orgulhar de mim. Sei que você deve me julgar fracassada, agora que estou desempregada, mas o Tobias, que nunca desanimou de ser o melhor gato do mundo para mim, não me olha mais de soslaio. Acho que ele já se acostumou que eu mudei.
E você, será que agora vai me aceitar? Mesmo depois de morta, eu ainda preciso do seu sim. E como desconfio que você só dirá sim para mim, quando eu disser sim para mim mesma, durante essa semana, eu desisti do diagnóstico e espero que o doutor Aloísio, quando chegar do congresso, não mande a secretária me ligar. Nem quero pensar em desistir da minha decisão.
É que estou tentando aceitar essa minha condição, de viver para um destino vermelho, manchado, desavisado e de prazer singular; quem sabe impróprio, imoral e até um tanto impensável. Parece a sina de todas as mulheres.
Então é isso: vou seguir a plenos pulmões, inteira e implacável.
Te amo, mamãe, ainda que.
Sua filha.