
Lixas de madeira
Everton Freitag

Broder. A mãe deu trabalho. Cada dia mais quieta. Cada dia mais no canto. A olhar o quintal pelo filtro da cortina. Sem forças para abrir. Ou simplesmente porque o quintal beirava a incompletude do deserto. Sem cajueiro. Sem garça. Sem o pai. Sem você. O quintal que ela deixou de fazer questão que eu varresse as folhas. E eu aliviado da libertação que sonhei desde criança. Ao mesmo tempo que isso soou como o estilhaço de um retrato de familia pintado em quadro de porcelana. Eu era o único e solitário beduíno naquele pequeno deserto. Que eram as pequenas forças que a mãe recolhia do fundo do poço que ela desceu aos poucos. Eu ter que andar atrás dela com a comida. Com os panos molhados para limpar o corpo dela. O sexo da mãe. Os seios que me deram o leite e o colo. Que perdi a vergonha aos poucos. Que parecia que ela não notava. O olhar que passava através de mim. A olhar o fundo. Sempre o mais distante. A boca que parece ter sido costurada por uma mandinga severa. Que não diz mais palavra alguma. Nem para levar ao banheiro. Urinava onde estava. Dia em que parte da mãe estava submersa num lago de mijo. Quando eu tinha que fazer os corres. Que passava o dia fora. A torcer para a mãe estar lá. O que sobra dela estar lá. Ter que crescer mais rápido. Para conseguir entender que apenas eu não bastava. Que ela morreu com o pai. Com você, mano. Que ela ainda viveu pelos involuntários movimentos do coração. Tinha dias que ela acordava melhor. Arregalava os olhos com a descoberta de minha existência madura. Cansada. Que a lançava à culpa. A mãe virou um beco sem saída. Eu a ter que administrar a casa. O Pastor a pagar as contas. Ter que continuar os saques sorrateiros nos dízimos para bancar os remédios da mãe. Os vitamínicos. Os psiquiátricos. O café aos conselheiros de plantão. Que batiam na porta a qualquer hora do dia. Para dizer que tristeza assim não existe. Que a vida é bela demais para viver no canto. Feito se a mãe tivesse se tornado um desafio. Um campeonato. Que todos disputavam o prêmio que eles criaram na cabeça deles. Então todos se empenhavam em tirar a mãe da tristeza. No feriado da província teve fila na porta de casa. Eu sem saber o que fazer. Porque eu não sabia o que fazer com a mãe. Que deixei tentarem um a um. O dia que terminou num banquete no quintal. Que levou toda a compra do mês. As mais diversas teorias de salvação. A disputa pelo método que fazia mais sentido à depressão opressiva da mãe. Aquela noite eu desejei que a mãe morresse. E isso me persegue até hoje. Igual minha sombra me persegue. A todo lado. Mas que nunca desejou a morte de alguém. A mãe que eu arrastava pelos braços para o quarto. Os chinelos a arrastar nas tábuas do piso feito lixas de madeira. Que era a sonoplastia do fim. Broder. A mãe deu trabalho. Cada dia mais. Nos últimos meses dela eu não tinha tempo para dilemas de filho. Eu era sua muleta. Eu era o veículo que transportava a mãe pela casa. Que tentava empurrar a comida dentro da garganta. Que ela engasgava porque não queria comer. Nunca. Que me levou a soprar por uma mangueira de jardim a comida. À noite. Quando estava apagada pelos remédios. O Pastor que largou o pastoreio dos fiéis porque não conseguiu salvar a mãe. Com as rezas milagrosas no culto. Com o trabalho das contas que voltaram a se acumular no gaveteiro. E isso foi a derradeira pra mãe. Ela ver que matou o pastor que havia no Pastor. Depois disso ela fechou os olhos. O coração e os pulmões entenderam que ela desistiu de vez. E ela se silenciou nas falhas engrenagens que ainda funcionavam por dentro. A Província decepcionada com o prêmio que morreu com ela. O Pastor que não foi ao velório. A morte da mãe denunciou seus falsos milagres. E eu a ver a mãe deitada no caixão. Diferente de como deitava no gramado. Na sombra do cajueiro. Agora a mãe ali. Na caixinha dela. Eu lembrar dela dias antes. Que era igual. A única diferença que ainda mantinha os olhinhos abertos.