
Palavras
Wanessa Raphaely Lima Paz

Para você.
Esta carta está sendo escrita ao som das palavras que sempre faltaram entre nós. Nós feitos de um bálsamo esfacelado e irritadiço, que se espraia por todo o meu ar.
Carta?
Escrevi
Com a timidez do toque sulfúrico das tuas palavras enrubescidas
Tremidas
Vadias
Aqui estou
Em areia movediça
Que nunca me devora
Nem com atento tempo
O gato chinês da sorte continua a dizer adeus ao nosso olhar desviante
O pássaro no telhado vermelho chama a companhia que só a ele chega
E eu indago as cegas clepsidras se ainda viveremos ou morreremos neste imagético
Quando
Aqui ainda é presente
Tu, inconcluso poente
A ludibriar a minha farsante quietude
Sussurrando em teus líquidos
Minha nascente Calipso que se recusa a te deixa partir
Descaminho em teus atalhos perfilados pelo nosso não tempo
Memória sedenta da apatia por não ser contigo
Fazendo sorrateiramente micélio da minha dor
E isso te apraz em voz rouca
Tu cospes a mata agreste e infame em meu doce sertão
Faz – me torre na encruzilhada do vendaval de te ver parir cosmos distantes
Cúspide
Em brados
Em braços
Em atos
Eu apenas te almejo
Nesta tentativa de te desescrever
De crer em um possível Caminho de Cora talvez
Cheio de versos e divindades embebidas no nosso alkaeste
Enlouquecendo na falta de propriedade destes versos ritualísticos e corrompidos
Que em vão insuflam em vaias
Que atropelam teus pelos
Pois as palavras se tornam enfim translúcidas e falhas
No recanto das palavras vazias, 13 de março de 2026