
Carta ao estrangeiro
Ivana Mayrink

Escrevo-te porque não te conheço, e o conhecimento, como sabemos, é uma forma de morte, uma taxonomia que empalha o que é vivo. Você, sentado à minha frente no balanço metálico e rítmico deste vagão do metrô, é a minha última liberdade. Se eu soubesse o teu nome, a marca do teu sabão ou a dor exata que faz esse vinco vertical entre as tuas sobrancelhas — uma cicatriz de pensamento, talvez? — eu te enclausuraria na minha compreensão. Você é o Estrangeiro. E o teu mistério é a única substância que ainda me mantém acordada neste trajeto de subúrbio, onde o mundo lá fora se desfaz em cinza e pressa.
Olho para as tuas mãos. Elas repousam sobre os joelhos de brim gasto como dois animais domésticos que, após anos de cativeiro, esqueceram como se caça ou como se agride. São mãos de quem carrega pesos invisíveis: as unhas curtas, o rastro de uma aliança que não está mais lá, deixando apenas uma marca de pele mais clara, um fantasma circular de um compromisso que o tempo — ou a vida — devorou. Há uma nudez nessas mãos que me agridem e me fascinam. Elas têm a crueza da matéria viva, a mesma paciência mineral das pedras, aquelas que guardam o silêncio do mundo enquanto tudo ao redor grita. O que elas tocam quando as luzes se apagam? Que fomes antigas elas tentam apaziguar no escuro de um quarto que eu invento agora para nós?
Traz sobre os ombros o peso de um paletó que, em algum passado impreciso, ostentou uma elegância arquitetônica, e agora se curva, rendido ao cansaço cumulativo das esquinas e das esperas inúteis sob o sereno. O tecido, outrora fosco e nobre, apresenta agora um brilho vítreo e persistente nos cotovelos; um polimento melancólico e involuntário, esculpido pelo atrito incessante contra tampos de mesas de escritório impessoais ou no frio mármore de balcões em bares solitários, onde se bebe para esquecer o nome das coisas. Esse lustre indesejado, longe de ser um defeito, transfigura-se na tua única armadura possível contra a invasão da banalidade que tudo devora.
Meus olhos descem, então, até os teus sapatos: um couro castigado, que guarda em suas dobras as cicatrizes geográficas de muitas chuvas e a poeira de caminhos que não levaram a lugar algum. Observo a forma quase rítmica com que o teu pé direito oscila no ar, um metrônomo nervoso e impaciente, marcando com precisão cruel o tempo exíguo que ainda nos resta de um falso convívio, antes que o apito do trem anuncie a inevitável chegada da próxima estação e o teu desembarque para o nada.
Você não sabe que neste intervalo entre duas estações de nomes esquecíveis, eu inventei uma genealogia inteira. Projetei em você a minha própria incapacidade de ser apenas uma unidade. O teu olhar, fixo em um ponto abstrato da janela onde o reflexo do interior do trem se choca com a escuridão dos túneis, é o meu próprio olhar voltado para o abismo íntimo. Há uma solidão urbana que nos amalgama, uma espécie de exílio compartilhado sob as luzes fluorescentes e barulhentas deste teto. Somos dois fragmentos de um espelho quebrado, dois restos de naufrágio tentando, em um esforço mudo e desesperado, refletir a mesma luz que não nos pertence.
Observo o movimento quase imperceptível da tua garganta quando engoles o seco, como se estivesses deglutindo uma palavra que nunca terá coragem de sair. Seria um nome? Uma súplica? Ou apenas o gosto amargo do café frio tomado no final da tarde? Eu sinto essa palavra na minha própria boca. A minha "fome" de ti não é a do corpo, é a fome da alteridade absoluta. Quero comer o teu silêncio para ver se ele tem o mesmo gosto do meu. Quero penetrar a superfície da tua pele — esse invólucro burocrático de cidadão — até encontrar o bicho, o visceral que lateja sob a tua camisa de algodão barato.
Escrever-te é um gesto de uma inutilidade soberana. É a estética do fracasso assumido. Não procuro a tua verdade biográfica — ela deve ser tediosa, composta por boletos, chaves perdidas e afetos mornos. Procuro o que é inalcançável. O que em você sobrevive ao naufrágio do dia a dia.
A porta se abrirá com aquele som pneumático que simula um suspiro de alívio. Você sairá, ajustando a alça da pasta no ombro, sem jamais saber que, por dezoito minutos, foi o centro do meu universo. Eu ficarei aqui, sentada no calor que o teu corpo deixou no banco, guardando a casca do teu silêncio nesta folha. O endereço desta carta é o vácuo. O selo é a minha própria lucidez, essa lâmina que corta o véu do cotidiano para revelar que, no fundo, somos todos estrangeiros de nós mesmos, viajando em trens diferentes para o mesmo destino de sombra.