top of page
resenha

Quem organiza esse relato é Laure, a partir de uma escuta atenta e uma escrita cuidadosa e amorosa, e as histórias vividas que Joséphine lhe transmite abrem portas para que adentramos na vida, na mitologia, no cotidiano e no nomadismo das Primeiras Nações. 


A parceria entre as duas autoras tem raízes longas, e segundo Joséphine, foi essa amizade que a lançou no caminho da poesia, tendo publicado com Laure sua primeira obra, Aimititau ! Parlons-nous ! em 2008. E as duas já colaboraram em projetos ambiciosos, como percorrer durante quatro anos as dez comunidades innues do Québec, encontrando mais de mil crianças e jovens que acompanharam na escrita. 


Joséphine Bacon nasceu de pé. A frase é dela, e é preciso deixá-la ressoar antes de continuar.


Nascida em 1947 em Pessamit, comunidade Innue localizada na costa norte do rio Saint Laurent, no Québec, Joséphine viveu os primeiros anos em semi-nomadismo no nutshimit — o território de caça, ou a terra-mãe, como ela mesma chama.  É no nutshimit que o povo innu caça, pesca e existe segundo seus próprios ritmos, e segundo a poeta, quem aprende a viver nele, o carrega dentro do corpo, pois dele provém uma forma de estar no mundo, uma postura perante a vida.


Quando lemos o livro, identificamos um exercício de gratidão e reconhecimento próprios a uma pessoa que sabe investigar sua vida, suas dificuldades e suas conquistas, e que sabe também nomear as mãos que a sustentaram e sustentam, assim como as vozes que vieram antes. 


Nesse sentido, o livro é também um relato de formação — mas de uma formação que não segue a lógica ocidental do aprendizado institucional. Tornar-se poeta, para Joséphine, foi uma revelação e um processo de aceitação, pois ela precisou reconhecer que os versos já estavam nela, sussurrados pelos anciãos innus que ela escutou durante anos de trabalho como intérprete, quando a oportunidade de voltar ao território lhe foi dada. 

Les Vertèbres de Josephine

O que nasce do encontro entre uma poeta e romancista bretã com uma poeta innue? Pelo que nos demonstram Joséphine e Laure, uma profusão de histórias.


Antes mesmo de abrir o livro, ao ver o rosto sorridente de Joséphine e o nome das duas autoras na capa, uma pergunta se impõe: o que significa escrever a vida de alguém, junto a essa pessoa, a partir da tradição oral? O que fica evidente desde a primeira hora é que não se trata de uma biografia, pois o que encontramos em Les vertèbres de Joséphine é um relato de vida e de gratidão, que evoca as pessoas que a ajudaram a se tornar quem ela é hoje, que a permitiram existir. Em suas próprias palavras: “Fiz-me bonita para que se note a medula dos meus ossos, sobrevivente de uma história que não se conta (...)” (Tradução livre).

Hoje ela afirma que escrever é mais uma forma de caminhar o nutshimit. A língua innu-aimun, que ela ensina há muitos anos, é o que ela chama de língua em movimento — uma língua que não se fixa, que se move com quem a fala, que carrega o território dentro da gramática.

É nesse contexto que entra Laure Morali. Sua prosa percorre o livro intercalada com os poemas de Joséphine, e essa escolha é que sustenta a narrativa. Na tradição oral innue, a palavra existe no encontro, na responsividade, no círculo. Ao tecer sua escrita em torno dos relatos de Joséphine, Morali reafirma sua própria presença. Escrever aqui é um ato de escuta e amizade.


Os poemas de Joséphine chegam ao leitor como respirações entre a prosa — e é justamente aí que o livro encontra sua melhor forma. Há versos que parecem ter sido ditos antes de serem escritos, que carregam o ritmo de quem fala para uma fogueira, para uma criança, para a tundra. Versos que carregam mensagens. A prosa de Morali, por sua vez, é densa de atenção — uma escuta que pretende transmitir o que ouve com fidelidade à sua textura original.


É o tipo de livro que nos faz chorar e sorrir enquanto lemos, e que fechamos aos prantos. Laure soube transcrever o belo, o difícil, o engraçado e o esperançoso. Joséphine soube transmitir suas penas, alegrias e esperanças para o futuro. Vai dos anciãos aos seus netos, sempre reconhecendo o papel fundamental que determinadas pessoas exerceram em sua vida.


Les Vèrtebres de Joséphine é um livro com dois nomes na capa porque foi mesmo feito por duas pessoas — uma que soube transmitir e outra que soube receber.

Título:Les vertèbre de joséphine 
Autoras: joséphine bacon e laure morali
Editora: Mémoire d'encrier, Montreal, Canadá 
Ano: 2026
Páginas: 197
Sarabatana Revista Independiente de Literatura
  • Instagram

REVISTA INDEPENDIENTE DE LITERATURA

bottom of page