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Coragem

Josué Tomasini

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Inconsequência,
A grande irmã da Coragem.
Caminham juntas,
De mãos-dadas
Mesmo quando ninguém vê.

Inconsequência é a que puxa
A irmã caçula que vai seguindo
E aos tropeços vê
Suas bonecas caindo ao chão:
Razão, a boneca velha de um olho só;
Coerência, a bonequinha de porcelana que ganhou de sua mãe;
Vontade, o ursinho de pelúcia que ganhou da avó;
E Verdade, a boneca de pano que fez com suas próprias mãos.

E segue,
Segue.
As pernas arranhando nas roseiras,
Os pés que começam a sangrar:
medo, pavor, loucura.
E já não sabes onde estás,
Para onde vais e se de fato estás a passar!

À frente,
Destemida, Inconsequência:

“Está quase lá! Já estamos a chegar!”
Responde à irmã Coragem,
Que lhe pede para parar.

E segue,
Segue.

Rasga toda a roupa. Machucada, nua, Coragem continua Não consegue parar E agarra forte ao que lhe sobra: O molho de chaves que ganhou do avô "Um dia saberás", disse-lhe o ancião; O cinto de couro do pai “Um dia aprenderás”, outrora aquele que castigava; E a echarpe de crochê que lhe fez a grande irmã, Que dizia, na primeira vez que saíram para passear: “Nunca saberás. Não há nada mais a aprender!”

E segue,
Segue.
Corre pela relva alta dos campos de verão
Os feixes de luz perfurando os olhos como flechas,
E o vento rápido soprando-lhe ao ouvido:
“Terror!”
“Terror!”

“Mas para onde vamos?”

Grita Coragem, assustada
E nota os cabelos esvoaçados de Inconsequência,
Que vira, sorri toda linda.
“Como é bonita a minha irmã”, pensa a caçula,
E se revigora, levanta a cabeça,
E agora a brisa que lhe sopra:
“Exuberância!”
“Exuberância!”

Segura firme na mão que lhe carrega.
Feche os olhos.
Não sinta mais nada:
As feridas abertas;
O sangue que esvai;
A fome;
O frio;
O terror urtigal.

Já não se ouve a cinta batendo,
Nem o tintilar das chaves.
Caiu a echarpe que sufocava o pescoço.
Não há mais nada.
E já não importa que seja assim.

Inconsequência, serena.
Olha com carinho à pequena Coragem.
“Em três pulamos!”
Grita a grande irmã, orgulhosa.

“Um!”

Os lábios secos.
Pés batendo forte ao chão.

“Dois!”

Os olhos fechados
A respiração ofegante.

“Três!”

E o céu inteiro entrecortado
Por todo tipo de entardecer.

“Pula!”

Todos os olhos outrora fechados
Voltam a abrir-se.
Uma avidez simples, que tudo aceita,
não quer mais nada.
E sorriem as bocas todas abertas
E abraçam-se todos os braços.
Ninguém mais se olha, ninguém mais se diz.
“Estamos a cair,”
Murmura Coragem.

E cai

E cai
E Segue a cair.

Inconsequência, olhando pra cima
Vê o penhasco que aumenta
O céu, todo bonito, que se afasta.
“Exuberância!”
“Exuberância!”
Lhe diz o vento que corta os ouvidos.

Fitando o rio abaixo, Coragem.
O vento, que lhe puni por tudo que vê,
Castiga os olhos que resistem.
O rio, esfomeado, se aproxima.
“Terror!”
“Terror!”
Lhe dizem as rochas, vendo-a passar.

“Não há mais nada a fazer,”
Sussurra a grande irmã
Que lhe acaricia as costas.

Eis então, o mistério revelado.
No estilhaço d’água: o sossego prometido.
Esta, é a única coragem que conheço.

Edição 1

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Marcos Fabrício

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