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facão
raquel ravanini

Começo é osso suculento,
primeiro cheiro de outro
coração batendo no ouvido.
Trago aqui meu facão,
a respiração na garganta
e o olhar furtivo no chão.
Tempo que passa é tempo que falta, depois.
Se a urgência queima a largada,
a demora faz amizade com quem não presta.
Veja,
ele não deixa
ele não quer
ele não pode querer
nem deixar
porque é para confiar
e continuar.
Essa agitação da vergonha, tão má companheira.
Essa preguiça desleal, tão má companheira.
É importante cuidar das amizades.
Amanhã. Hoje. Depois
e depois.
É pra já
era pra já ser
era pra já ter sido.
Será?
Peito, peito, que lembra de respirar,
arfando para me lembrar,
suspira, que você é meu querido amigo.
Será que avisaram, mas não deu para ouvir?
Ou é assim mesmo, com desespero, despreparo,
confusão e tumulto?
Não tem volta nem revolta.
Segue o passo e dança.
Estica o pé e pula.
Para de vez em quando para sorrir.
Subindo, subindo,
empurrando esses limites todos,
jogando para cima as bolas
e correndo para longe antes que caiam.
Quando caírem, não serão mais minhas
ou eu não serei mais delas.
Não é como apertar um gatilho
uma vez só e pá.
Nem de metralhadora.
É mesmo empurrar pedra montanha acima
para deixar rolar e ter um vislumbre de vista
antes de desembestar correndo para ver o estrago.
Não tem estrago não
tem ventilação, passeios.
Com sorte, deslumbres.
Sem sorte, ensimesmices.
Amanhã.
Ontem.
Faz diferença?
Estou aqui com meu facão, engrossando o caldo.
Esse facão é uma espada
que só flameja quando sai da terra.
Esse facão também é um barco
uma videochamada para dentro.
Agarro uma árvore aqui
enfio o pé na lama ali
arranho a pele.
Vontade de parar
é torpor do esquecimento.
Vai.
Come dessa mesa farta.
Parece vazia porque você ainda não acostumou a vista.
A vista é vasta, infinita.
Aqui não tem tempo.
Aqui é você
é você
você.
Vem.
Acostuma-se de novo
prova essa roupa
e passeia por aí.
A cadeia de momentos ainda é pequena.
Colecionar momentos
é o melhor passatempo,
vocação ou privilégio.
E vem de novo aflição
porque a água ainda está fria.
Os pratos têm sabor desconhecido.
O caminho é por aqui mesmo.
Isso consigo distinguir.
Reconheço alguns lugares,
lembro quando não tinha medo.
Faço de conta que já estou em casa,
apesar do cheiro estranho.
Dou a mão,
ando
devagar no começo
parando sem entrar num ritmo.
Quanto tempo demora para a visita se sentir à vontade?
O tempo de reconhecer seu reflexo.
Hoje está um pouco escuro
ou será névoa?
As cores se escondem.
O silêncio espera.
Já tinha esquecido onde estou
começado a ensaiar um passo de dança.
Vou,
estou aqui.
Eita, saudade!
Começo da picada
apreensão com rugidos
facão demorando a desembainhar-se.
Andei um bocado.
Nem tanto
mas na primeira vez a gente elogia mais.
Conversar-se é essencial.
Convencer-se, não.
Já sinto um cheiro de mato,
uma mão me puxando para dançar,
a alegria do movimento.
Mas as cores ainda não deram as caras.
A música é mais baixa que o silêncio
e o sono pesa nos dedos.
Vou convidar a visita para me ajudar a arejar a casa
abrir as janelas
provar da comida
regar as plantas
fazer uma fogueira se escurecer
cantar uma canção para afastar os tigres.