%20(9).png)
A viagem de Helena
Tatiana Barbosa

Eu teria de viajar pela primeira vez desde que as fadas chegaram ao meu mundo. Não
temia a viagem em si, mas havia me acostumado a existir em três. A existência
compartilhada trazia alguma leveza, ou sentido. Lembro do olhar de cada uma das
minhas filhas sempre que escolhia a muda certa de alecrim para um pedaço de terra.
Quando endurecia meus dedos na água gelada, estava preenchendo o balde de
possibilidades para as plantas, e para as duas, sempre.
Eu caminhava pelo pasto molhado de noite, e lembrava das risadas contidas. Nós
três guardamos o riso, de forma que apenas um murmúrio consegue saltar pelo meio dos
dentes. É o barulho contido do rio que corre ao longe. Temos um rio dentro do peito.
Pelo menos Bruna e Larissa, sorriem com os olhos. Em meus olhos se vê apenas a
braveza e o susto do gato.
Na única mala de viagem que sempre tive, guardei as ervas colhidas e secas com a
precisão de todos os dias, alguns frascos, e duas trocas de roupa. Teriam de ser dois dias.
Pela primeira vez, chamaram-me de urgência no vale vizinho. Fazia pouco que
havia se espalhado a notícia do meu talento com a medicina do bosque. Neste canto do
mundo, as pessoas ainda confiam no poder de cura da mata patagônica. Eu nunca havia
estendido a estranhos a capacidade de entender cada planta para extrair os remédios e
aromas. Antes, esta compreensão era voltada somente a mim mesma. Nunca pensara que
pudesse ter alguma utilidade para um outro.
Cresci só, e só aprendi a me cuidar. Afinal, mesmo antes dos meus pais me culparem pela
gravidez, eles tinham uma existência sem existir. Passavam por mim como dois
fantasmas. Passavam através.
Assim que o sol conseguiu vencer a altura da montanha e tocar o pasto, o calor
pode derreter o finzinho da neve que havia castigado nosso vale por quase todo o inverno.
Eu caminho melhor no frio, mas consigo sentir certo prazer quando os músculos não
lembram de se contrair ou proteger. O prazer, na verdade, é uma nuvem de tempestade que me envolve e desperta mas, por quase uma vida inteira, permaneceu contida, na
iminência. O corpo, apesar da gravidez, nunca havia sido tateado. Eu não conhecia os
caminhos para as mudanças de temperatura, ou os atalhos para os verões e vendavais.
Tinha um corpo de menina que teve de acordar mulher.
Estive ainda emaranhada na missão de criar outros dois corpos. Era a primeira
vez, desde então, que eu podia caminhar de novo com as mãos e os braços livres. Podia
alcançar as flores e plantas e galhos e qualquer ser vivo que me cruzasse a estrada. Podia
cheirar, provar, escolher, enxergar ou ignorar. Podia. Era bom o gosto de andar só.
A solidão é parte minha e, mesmo rodeada, mesmo no burburinho, sei sempre por
onde escapar. Sem fazer força ou desejar. Os dois juntos, solidão e silêncio, levam-me
para um mundo entre os mundos. Somente meu.
Quando sai da proteção dos coihues, deparei-me com a luz, mais dolorosa do que
esperava. Uma náusea me fez cair na grama úmida. Uma vez mais, o horizonte se borrou
de cinza. A voz que invadia meus ouvidos era de minha mãe.
Você traiu a nós e aos propósitos que te havíamos confiado. Falhou em cuidar de
si mesma e, nunca, jamais, será capaz de cuidar de um outro qualquer.
A voz penetrava em minha pele, no estômago, e em toda camada que me constituía.
Virei semente, olhei para os sete anos em que pelo menos havia garantido a
sobrevivência de Larissa e Bruna, e decidi. Não poderia, era verdade, nunca deveria ter
acreditado.
Ali, a viagem terminava.
No caminho de volta, as árvores tocavam o céu. Uma imensidão de seres do
bosque com tentáculos me envolvia e apagava as divisões entre o chão e o horizonte. Eu
me deixava conduzir e deslizava sem sentir os pés.
Eu, agora pequenina, beliscava a ponta dos dedos das mãos na tentativa desesperada de
me manter desperta para garantir que estava mesmo retornando à casa.
Os galhos me agarravam e depois empurravam. Apertavam-me até quase sufocar
e depois me soltavam com força, adiante.
Um abraço, depois um empurrão, adiante.
Quando por fim senti o corpo voltar ao tamanho certo, a cadência com que me
levavam diminuiu até quase parar e, desta vez, a mão que me conteve era quente e macia.
Um homem de corpo jovem, rosto e alma velhos. Os olhos dele entraram fundo nos
meus, e viram. Enxergaram o abismo.
O homem me puxava e desferia golpes contra os galhos e troncos. Ele não
distiguia os que me abraçavam dos que me sufocavam. Ele não diferenciava o que estava
em sombra do que estava em luz, como se nada naquela floresta fosse digno de cuidado.
Eu não tinha forças para me desvencilhar da mão. A temperatura, a pressão daqueles
dedos, as unhas afundadas em minha carne, a cada puxada, elas me esvaziavam.
A mente se preenchia de uma fumaça onde apenas as memórias de dor
mantinham-se intactas. E as imagens entravam e saíam, entravam e saíam. Eu era só
pensamento. E, se reencontrava o rosto de minhas filhas, sofria por ver bocas, narizes e
gargantas disformes. E, se tentava buscar os olhos de cada uma, encontrava apenas os
olhos de Larissa. E eles suplicavam.
Sou eu, sou eu que devo partir. Você sabe, eu sei, nunca poderemos ser mãe e filha. Você nunca pode e nunca poderá cuidar de mim. E eu não posso e não quero cuidar de você.
Antes de perder a consciência, entendi. Estava diante do escuro e da morte e do único destino que a vida me oferecia. Era assim. A compreensão se espalhou por meu corpo como água, como o rio que corre no quintal de casa, e então os músculos mais internos começaram a relaxar.
Levantei e pude sentir o sol tocar de novo o peito. Em menos de uma hora, estaria
de volta às minhas meninas.


