
Entrevista
Indira dominici
Indira Dominici vive entre Brasília e Paris. A artista trabalha com cinema, fotografia e pintura, sobretudo com técnicas analógicas, interessando-se pelos processos de revelação, pela duração das coisas, pelas diferentes elasticidades do tempo. Sua obra procura dar corpo ao que é fugidio, construindo formas onde afeto se torna matéria. Indira escreve, também.
Como as cartas e os cartões postais entraram no seu trabalho artístico?
Nossa, tem muita coisa aqui.
Começa na infância. Eu cresci com as imagens da vida da minha mãe na França logo antes do meu nascimento. Eu achava interessante imaginar aquela vida antes de mim, o mundo antes de mim. As fotografias que ela mandava pra família no Brasil. Tinha fotografia de Paris com filme daylight à noite, então eu achava que quando eu finalmente conhecesse aquela cidade ela teria aquela cor super alaranjada. Tinha também muito postal, que os amigos mandavam para ela, com mensagem engraçada, carinhosa. Alguns acho que se comprava para lembrar de um lugar que visitara. Lembro de achar um postal que minha mãe mandou pro seu pai, meu avô, o Dominici. Ela estava na Itália que ele, de origem italiana, nunca tinha ido - e nunca foi. O postal dizia: “papai, aqui tem homens do nariz igual ao seu”
Tem um fragmento que me atormenta há décadas pois não lembro onde li: “não importa o que eu escreva, tuas mãos tocarão este papel” achei que poderia ser do quintana, do neruda, mas nunca descobri. Talvez fosse uma besteira de alguma revista adolescente, ou até uma publicidade. Acho que li isso muito nova. Algo cintilou dentro de mim quando percebi que era isso: não era tanto sobre o que eu escrevia, mas sobre, materialmente, o papel que sentiu as minhas mãos ser recebido por mãos, outras.
Tem uma coisa bonitinha que rolou na minha infância (eu inclusive escrevi na newsletter), passando férias em Búzios eu achei uma mensagem numa garrafa. Era de um homem holandes, que tinha como passatempo jogar cartas no mar, do seu barco, e ver onde elas chegavam. Eu tinha uns sete anos, e uma carta veio parar na minha mão! Eu me senti conectada com alguém, pelo oceano, eu achei tudo aquilo muito incrível. A carta estava escrita em inglês, eu precisei de ajuda para decifrar. Respondi a carta conforme instruções: dizendo dia, hora e localização de onde encontrei a garrafa. De volta, recebi uma carta de agradecimento. No envelope havia também dois postais: um campo de tulipas e um moinho.
Adolesci, começaram os apaixonamentos. Um dos primeiros caras com quem flertei - acho que demos só um beijo - tinha morado nas ilhas Faroe e eu achei isso muito fantástico. Ele estudava Esperanto e morava em Curitiba, então eu comecei a escrever cartas de Brasília para Curitiba. Lembro de uma vez ele comentar que a minha carta - de postagem normal - tinha chegado em menos de 24h. Fiquei pirando nisso também: no tempo que as cartas levam. O tempo que escorre entre eu escrever e a pessoa tocar aquele papel. Eu sou outra pessoa quando a carta chega. Isto é fantástico.
Depois desse cara, me apaixonei por um que morava em Paris. Também acho que só tinha dado um beijo na criatura, e ele voltou pra França. Ali, mandávamos cartas longas um pro outro, longuíssimas, páginas e páginas, fotos 3x4. (Me deu um leve pânico agora, escrevendo essas linhas, de não saber onde estão essas cartas. Vou achar.)
O que existe nas formas epistolares que te interessa?
Hermes. O deslocamento. Mercúrio de sandalinha alada, levando sentimentos, elaborações, verdades e mentiras pelos ventos. Antigamente a gente usava os pombos para mandar missivas; hoje os pombos circulam desaplaudidos, indesejados, hostilizados. Seres que tinham missão tão nobre. Ingratos, somos.
Paris teve uma enorme rede subterrânea de correio pneumático — cápsulas com cartas e bilhetes viajando por tubos de ar comprimido sob a cidade. Em menos de uma hora, uma carta de amor chegava, fisicamente empurrada pelo vento comprimido nos tubos. Um tipo de telegrama que eu acho absolutamente fascinante - e eu amo telegrama, também: pro meu aniversário de 40 anos, convidei seletas dez pessoas para uma festa, por telegrama. Metade foi parar no endereço errado. Uma amiga ficou tão surpresa quando o porteiro anunciou o telegrama que ela achou que fosse a polícia.
Cartas para mim mesma é um projeto que comecei há uns 15 anos, não localizo bem a data. Escrevo postais, sobretudo, mas cartas também. As cartas não abri ainda desde que recebi. Acho que, de conteúdo mais denso, não estou pronta para relê-las. Preciso de tempo. Mandando para mim mesma, o tempo passa, eu esqueço, ou quase esqueço, e a chegada da carta vira outra experiência, que tem uma nuance oracular.
As caixas de correio no brasil já não existem mais, sigo buscando aquela caixinha amarela de design ótimo. Quem souber onde ainda tem, me avisa. Orelhão, também, eu amo.
Seu trabalho parece muito atento à materialidade, papel, corpo, fotografia, pintura, intervenções, deslocamentos físicos. O que a carta carrega que o digital não consegue substituir?
Só dá para botar fogo em algo que existe.
Numa nota menos incendiária, na carta posso colocar meu cheiro. Posso apertar contra o coração.
Você vê diferença entre escrever para uma pessoa específica e publicar para muitos? Sua newsletter atravessa essa questão de alguma forma, tendo em vista o uso das várias línguas que você traz em uma mesma carta?
Não sinto que isto esteja muito resolvido nas cartas da minha newsletter. Sinto que escrevo para essa pessoa específica sempre, mesmo que ela seja um pouco disforme, ampla, com muitas cabeças. Bem, numa análise meio picareta, estou escrevendo, novamente, para mim mesma.
Para mim faz sentido o barulho das línguas, os ritmos vários. Até porque eu acho interessante não entender. Me lembro de ter esta conversa várias vezes em Paris: às vezes estávamos em rodinhas de brasileiras conversando em Português e aparecia um francês ou outra nacionalidade que ficava incomodado em não entender. Eu questionava: por quê você quer entender tudo? Você não acha interessante ouvir um som que não entende? Presatr atenção na música de outra língua? Você precisa participar de tudo? Tudo é sobre você?
Óbvio que frequentemente as pessoas ficavam defensivas, mas eu estava genuinamente interessada nas respostas, não era (apenas) provocativo.


Em muitos trabalhos epistolares, texto e imagem parecem inseparáveis. Como essas linguagens se encontram no seu processo?
Esta não soube responder. Levantei os olhos do teclado do computador e olhei para a querida amiga que me hospeda, que estava em pé à minha frente, e li o enunciado. Ela me olhou de volta e disse que a imagem dispara o texto - mas também pode ser o contrário. Tudo é linguagem. Tem um fio, longuíssimo, a ser puxado. Uma latinha com um barbante e outra latinha. Tem uns nós no fio. Mas eu gosto de desfazer nós.
O atraso, a espera e a possibilidade de extravio fazem parte de como você pensa seu trabalho?
Sim, muito. Acho que um dos últimos trabalhos, que, digamos, deu mais trabalho, foi um livro-objeto a partir do livro Tristes Trópicos do Claude Lévi-Strauss, que eu fiz para um cara que quase amei. Eu fiz ali, depois que a gente percebeu a não possibilidade do amor, um objeto, porque eu queria materializar o fim, transformar em palpável o que eu estava sentindo, em algo que pudesse ser tocado.
Eu nao dessacralizei o livro, não risquei, não arranquei página. Respeito muito livro, sou incapaz de marcar com caneta - apenas lapis e com a mao bem leve. Os livros são objetos transcendentes/Mas podemos amá-los do amor táctil/Que votamos aos maços de cigarro.
Mas esta edição em inglês (não achei em francês) do tristes tropiques teve páginas que acrescentei com Hilda Hilst, Octavio Paz, transparências com ilustrações, polaroids, retratos em giz pastel, transcrições de mensagens de texto de celular, uma playlist e, para mim, o melhor - um marca pagina que é uma trança fininha de fios dos meus cabelos.
Mas eu comecei a contar esta história para falar de extravio: Eu mandei esta obra para Nova Iorque, para a casa de uma amiga, porque eu não tinha o endereço do cara - só a universidade onde ele ensina (nos conhecemos em Paris e nos encontramos na Cidade do México).
Por umas 24h o objeto se perdeu. Fiquei ali ansiosa, mas pensando que se tivesse que chegar, chegaria. Chegou, ela entregou - o que foi uma performance à parte.
Você vê suas obras também como formas de arquivo, memória ou coleção afetiva?
Todas as anteriores. Mas sobretudo acho que muito de tudo o que eu faço é memento mori. Capturar o afeto. Eu não esqueço da morte. Eu tenho uma chacrete e um adolescente gótico que moram dentro de mim, e eu alimento os dois igualmente. Eu nunca preciso me lembrar de que eu vou morrer pois simplesmente eu nunca esqueço.
O que significa, hoje, continuar enviando coisas pelo correio?
A parte que eu não controlo. Que é muito o meu rolê com a imagem analógica. Tem o tempo, respeitar o tempo das coisas. Não fica pronto na hora, tem mistério. Tem perda de controle. Tem trajeto, e tem deriva.
E também apoiar os correios e telégrafos. Recentemente descobri que todas essas grandes empresas privadas, tipo DHL e Fedex, usam a logística dos correios cobrando muito mais do consumidor. É um ato político também. Defender o que é público e comunica.